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Não podemos ignorar

Há situaçõesde desigualdade e de exclusão social a que um cidadão responsável não pode, de modo algum, ficar indiferente. Tem de saber ver, de saber julgar, de saber agir

N/D
17 Jun 2004

Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar», diz-se num poema de Sophia Breyner.
Lembrei-me deste texto ao ler a carta da Comissão Nacional Justiça e Paz intitulada “Um olhar sobre as desigualdades e a exclusão social. Um outro compromisso com um mundo mais justo e solidário”, divulgada por ocasião da passada Quaresma.

Não sei que eco terá tido esta carta. Trata-se, em minha opinião, de um documento de muito interesse, que proporciona uma séria reflexão sobre alguns aspectos da realidade portuguesa e pretende sacudir injustificáveis apatias relativamente a situações intoleráveis que, irresponsavelmente, se vão permitindo.

A carta principia por referir um conjunto de crescentes situações de desigualdade e de exclusão social. Entre outras, salienta o facto de cerca de 1/5 dos nossos concidadãos conhecerem a pobreza com maior ou menor severidade e de uma parte deles nunca ter tido situação diferente, porque a pobreza se tornou hereditária e esteve sempre presente nas suas vidas;

o aumento considerável do desemprego nos últimos anos, afectando hoje mais de 400 mil pessoas;

a intensificação da duração e das exigências do trabalho e o recurso sistemático ao trabalho extraordinário, muitas vezes com desrespeito das normas legais vigentes e dos preceitos internacionais;

os baixos níveis de remuneração média dos trabalhadores, do salário mínimo e da pensão mínima;

os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação, de saúde e, de modo geral, dos demais bens públicos que, longe de revelarem desejáveis melhorias, parecem regredir;

o défice de habitação social.

Em contraste com estas e outras mazelas, refere a carta a existência de remunerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais;

os investimentos públicos que têm sido feitos em obras faraónicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da população;

o elevado número de casas desocupadas, que funcionam para os seus proprietários apenas como capital expectante e a existência de «indícios de que a compra de casas luxuosas em alguns casos está associada à lavagem de dinheiro e à corrupção».

No que se refere às empresas, é referido o facto de ficarem por sancionar práticas de gestão danosa, por vezes, a par de elevados proveitos dos seus gestores, e, em particular, o encerramento das mesmas, à revelia da participação dos respectivos trabalhadores que são atirados para despedimentos colectivos.

Lamentam os autores da carta a existência na população portuguesa de uma fraca sensibilização à pobreza e à desigualdade, não as considerando como males sociais.

É tempo, afirmam, «de insistir junto dos nossos concidadãos e dos cristãos em particular sobre a necessidade de um outro modo de olhar as situações de empobrecimento nas suas múltiplas vertentes e da grande desigualdade que se instalou nas nossas sociedades, de compreender os mecanismos económicos, financeiros e políticos, que as produzem e alimentam, de tomar consciência de como tais situações comprometem a coesão social e constituem uma ameaça à paz».

A última parte da carta é uma forte interpelação aos cristãos que, incoerentemente, não levam a religião para a vida nem são, como lhes compete, luz, sal, fermento. Mas disto falarei em próximo artigo.

Termino como comecei: vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar. Há situações de desigualdade e de exclusão social a que um cidadão responsável não pode, de modo algum, ficar indiferente. Tem de saber ver, de saber julgar, de saber agir.




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