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No Euro 2004 cultivar a espiritualidade cordial

O princípio da santidade, que é marcada por esta tensão, pela vertigem ascencional para o infinito que irresistivelmente nos atrai, oferece-nos a providencial atmosfera do Euro 2004 em Portugal, também simbolicamente evocada na bandeira nacional, que nestes dias multidões agitam, fazendo mover-se no ar as cinco quinas, que representam as cinco Chagas de Cristo, das quais a do centro é sem dúvida a do Coração

N/D
16 Jun 2004

Vivemos todos nestes dias a euforia do Euro 2004 e não fica mal nem ninguém estranha que todos desejemos a vitória para a equipa que a todos nos representa. É sem dúvida um acontecimento de extraordinária transcendência, como foi, noutro nível e com outra dimensão, a Expo98.
São momentos únicos nos quais todos nos sentimos como que unidos por uma nobre razão, então a evocação da água e dos oceanos, como fonte de Vida; agora o futebol, o desporto que mais emoções provoca, talvez porque tudo gravita em torno da tensão estética em contornar e dominar o impossível que a esfera representa, também o ideal da perfeição, quase divina, que polariza a humana acção.

Sou um apreciador do futebol, agora mesmo quase por razões estéticas, que não sigo nenhuma equipa em particular, e o espectáculo de um desafio de alta competição como este Euro 2004, sempre me emociona.

Este campeonato coincide, providencialmente, com o mês de Junho, e inicia nas vésperas do Santo António! Esta coincidência deveria levar-nos a pensar na possível relação entre o desporto, e, neste caso, o futebol, e a santidade, pois não se trata, em ambos os casos e por caminhos diversos, mas convergentes, do mesmo ideal de perfeição, mantidas, evidentemente, as devidas e necessárias distinções?

O percurso da santidade, desde São Paulo, foi sempre comparado a uma corrida num estádio, a uma certa competição, e por isso, a partir de uma antropologia estética do desporto em geral e do futebol em particular, poderia iniciar-se um caminho analógico que nos permitisse redescobrir, neste tempo pós-moderno em que se exacerbam as crises, de valores e de nobres causas, como se a humanidade estivesse a definhar (e há razões de sobra para este tipo de análises e de prognósticos lúgubres!…) uma renovada alma para o homem contemporâneo.

O Futebol recorda-nos algumas virtudes fundamentais para a construção do carácter: a importância do treino, do exercício, da perseverança; a competição, a luta, o esforço, o irrecusável e necessário espírito de sacrifício e de abnegação. Sem estas virtudes ninguém vai a parte nenhuma! Então daqui pode e deve partir-se analogicamente para os outros temas e domínios que entretecem a nossa vida, que passa irrecusavelmente pelo mesmo ou ainda maior esforço.

Mas, como acontecimentos recentes, não apenas do desporto, mas também da política nos têm recordado, é necessário que o atleta, no qual cada espectador como que se reconhece, tenha um grande e muito forte coração.

O mês de Junho é para nós o mês do Coração de Jesus. Talvez fosse oportuno entre nós desenvolvermos uma reflexão, que nos conduzisse depois a uma prática pastoral e a uma pedagogia espiritual, que nos permitisse redescobrir como na espiritualidade cordial se encontra também a resposta precisamente moral e espiritual para os problemas (alguns deles gravíssimos) destes tempos pós-modernos, como foi a resposta (moral e espiritual) para os não menos graves problemas modernos.

Porque nos obriga a pensar nos grandes temas existenciais do amor, do sacrifício, da reparação, da atitude oblativa e gratificante perante os outros e perante a vida, porque conjuga, na celebração dos mistérios, o sacramento do perdão e da misericórdia com o sacramento da vida e do amor.

A contemplação do Coração de Cristo evoca em nós e desperta-nos para a lógica da incarnação, para a importância dos pequenos gestos de simpatia, de compaixão e de cordialidade, o que exige uma grande disciplina e atenção, uma enorme concentração no essencial, na projecção do olhar e de todas as energias para aquela esférica perfeição que se não pode dominar e, tal como o Espírito, de que falava Jesus com Nicodemos, sabemos de onde vem, mas não para onde vai!

O fascinante do futebol, do ponto de vista estético, é precisamente o movimento dos corpos jovens numa tensão determinada pelo princípio da incerteza, porque toda a técnica é insuficiente para dominar a não manipulável e auto-transcendendo-se esférica perfeição!…

Ora, o princípio da santidade, que é marcada por esta tensão, pela vertigem ascencional para o infinito que irresistivelmente nos atrai, oferece-nos a providencial atmosfera do Euro 2004 em Portugal, também simbolicamente evocada na bandeira nacional, que nestes dias multidões agitam, fazendo mover-se no ar as cinco quinas, que representam as cinco Chagas de Cristo, das quais a do centro é sem dúvida a do Coração.




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