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A monarquia espanhola… e a nossa

Assistimos, por vezes, a crimes de lesa-cultura e história

N/D
15 Jun 2004

As imagens do Príncipe Felipe e de Letizia de Espanha deixaram-me siderado ao ver um conto de fadas, embora noivos reservados nos beijos oficiais.
É verdade. Pode-se discutir o preço e circunstâncias de um tal casamento faustoso, mas é importante exprimir e ostentar símbolos, imagens, sonhar…

A Espanha não perdeu a oportunidade para mostrar a mais de um bilião de espectadores o que vale e o que representa a sua monarquia, a esquecer até os ataques de horror em Madrid, mesmo assim não esquecidos pela Família Real.

Presentes o nosso Presidente da República e o que resta da nossa monarquia – D. Duarte e Isabel Herédia -, no meio de tantas famílias reais europeias e do Oriente.

Tudo a postos na catedral, com música, decoração, brilhantismo e pompa eclesiástica, forneceram o caleidoscópio de um país que sabe o que quer, em tolerância política, desculpando mágoas e traições. Para um povo de convicções e costumes muito fortes, não esteve mal, nos tempos que correm.

Muitas vezes me interrogo se para um país como o nosso – já com dois Presidentes da República jubilados ou na reforma, a caminho de três! -, como reumáticos de uma Constituição, que exige o sufrágio directo para “jarrões” e “corta-fitas”, não seria melhor uma Monarquia?!…

Logo me dirão que estou louco, sobretudo a esquerda; mas que os símbolos são importantes, ninguém duvida… e sempre os apoiei.

Vale a pena revisitar o que Rodrigues Miguéis escreve sobre o nosso regicídio, pela boca de uma testemunha ocular:

– «Foi ali! Foi ali! Eu vi tudo com estes olhos, aqui desta varanda, horas à espera de suas majestades, com as colchas dependuradas como num dia de procissão…» – começa D. Leonor de Mendanha e Serrano a sua narrativa, cheia de tremuras e impropérios. «Aflita, aos gritos, sem lhes poder acudir! Onde estava a escolta? Onde estava a tropa? Onde estava João Franco?» – e depois desfila tetricamente a tragédia do regicídio:

«Os cavalos a galope, o senhor D. Carlos a arquejar, ainda se quis erguer, mas o Costa de revólver em punho, assim por trás dele, a traição, aos tiros, aos tiros!… O senhor D. Filipe já vinha morto, muito branco, um anjo loiro… E a senhora D. Amélia, em pé, a gritar, a enxotá-los com o ramo de flores que lhe tinham oferecido ao desembarcar… o infante, coitadinho (era D. Manuel) pálido, com o braço a tapar os olhos, como se não quisesse ver a tragédia, ver a morte!…»

E enquanto D. Adélia na saleta escuta a crónica do crime hediondo, na sala de jantar para onde foi levado pela criada da fidalga, o seu filho Gabriel, de farripa na testa e vestido de machosa principezinho, manda ao diabo o Rouget de Lisle e a bolacha marselhesa que tresanda a naftalina (cf. Faria-Manuel, in Obeliscos, ed. APPACDM, Braga 1991).

Com o autor citado, também eu me pergunto: a uma distância de mais de nove décadas, em que a virtuosa senhora Dona Maria Amélia de Orleães, filha mais velha do Conde de Paris e neta de Filipe I, rei de Franca, viu perecer a seus olhos, no fatal dobrar de uma esquina, o esposo e o filho querido, ainda hoje se me confrange e enternece o coração de português e de cidadão do mundo. E pergunto com ele: porque morreu, às mãos assassinas, aquele inocente bambino e português ilustre, artista e sábio, aguarelista, oceanógrafo e ictiólogo, que, na sua fugaz passagem, pelo trono soube honrar o nome de Portugal eterno?

Se a hereditariedade é um facto, porque não conservamos nós, ainda como relíquias vivas, os “genes” dourados destes santuários coroados, onde cabem afinal todas as ideologias políticas e todos os credos religiosos? E o referido autor termina: Vítimas inocentes do fatalismo histórico? Bodes expiatórios da sociobiologia em marcha?

De facto, muito mais teríamos de conservar e aprender, se soubéssemos esquadrinhar, compreender e guardar os pergaminhos e escaninhos da nossa História.

Mas assistimos, por vezes, a crimes de lesa-cultura e história, envolvidos em recalcamentos necrófilos e autofágicos, que nos trucidam no interior e esmagam as ambições do Povo que devíamos ser… De quem é a culpa?




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