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A abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu

Quando o país dos políticos se divorcia do país real, o que é natural é que as eleiçõessejam uma vitória da abstenção

N/D
15 Jun 2004

Não sei, francamente, que percentagens de votação obterão as eleições de hoje, domingo, para o Parlamento Europeu. Certamente que a morte brusca de Sousa Franco, e como um amigo ontem me dizia, a entrada com o pé esquerdo no Euro 2004 de que somos organizadores, pode aumentar o índice de abstenção, num Portugal sofredor, que não gosta de perder no futebol e não gosta também de óbitos inesperados e mediatizados.

Saliente-se ainda o desaparecimento, mas este menos perturbador por ser fruto de doença prolongada e letal, duma figura proeminente do Partido Comunista. Tudo são factores que ensombram o quotidiano pacato do português médio e tornam muito imprevisível o seu comportamento cívico, quando a vida o convida a enfrentar-se com emoções mais fortes.

Pode também dar-se o caso de que, chocado com tudo o que aconteceu (incluindo sobretudo a derrota com a Grécia), o português médio tenha ficado tão aborrecido, que decida expandir os seus sentimentos mais íntimos – de raiva, de desgosto, de vergonha, de desalento, de perplexidade ou do que quer que seja -, votando com mais fervor e aumente o número de eleitores que dão resposta positiva aos incitamentos dos políticos e do Presidente da República, no passado dia 10 de Junho, no sentido de se cumprir o dever de votar.

Estava a escrever no vazio, pois não tinha quaisquer dados sobre a ida até agora – final da manhã/princípio da tarde – de cidadãos às urnas. Soube, há pouco, que com cinco horas de votação, só 14% dos eleitores assinalaram a sua presença. No entanto, esquecia-me de salientar outro argumento de peso, que pode levar a que os níveis de abstenção subam para fasquias superiores a quaisquer outras até agora verificadas.

O dia domingueiro rodeou-se dum calor notável e dum sol que convida ao lazer da praia, à busca da sombra de uma carvalheira tranquila (onde a sestazinha modorrenta sabe a céu reconfortante). E, se assim é, a cidadania pode sofrer obnubilação súbita, em favor do sono reparador e da pergunta cómoda que cada lusitano se faz nestes momentos: “se eu não for, o que perde o país? Por outro lado, o que tem a ver comigo o Parlamento Europeu?”

A democracia não é fácil de viver, se bem que, entre os sistemas políticos, seja aquele que mais confia na importância do cidadão, quando lhe confere o direito e o dever de dar a sua opinião sobre assuntos que interessam ao bem comum de todos. E de tal maneira confia nele que, ao menos no voto, lhe dá perfeita paridade com os cidadãos mais relevantes, pois possui o mesmo valor quantitativo o voto do Presidente da República e o que expressa o Tio Anacleto, na sua aldeia de “Trutas do Meio”.

Os políticos podem queixar-se da falta de empenho do português médio em cumprir o seu dever cívico de votar. Inclusivamente, com respeito às eleições de hoje, contam com a grande e tranquilizadora desculpa de que a abstenção elevada é comum a toda a Europa.

Devem pensar, porém, se toda a sintomatologia do desinteresse pelas grandes jornadas políticas que se jogam nas diversas eleições, se deve apenas à preguiça lusitana que prefere o sol ou a sombra repousante à câmara de voto, à afectividade enfermiça nacional tão característica, que leva o português a ficar paralisado quando vê um político morrer duma forma intempestiva em plena campanha, ou sente que apanhou um murro no estômago da sua auto-estima, quando a “equipa de todos nós” claudicou no início do Euro 2004, em casa própria.

Não será que os políticos necessitam de repensar a imagem que oferecem aos cidadãos com a sua acção? Nas promessas eleitorais que fazem e não se cumprem?

Nos diálogos barrocos, e por vezes até agressivos, durante horas e mais horas, no Parlamento em que representam o povo que neles vota, sem resolverem os problemas que o afligem? Nas diatribes verbais entre a oposição e o poder, onde é difícil divisar, no meio de tão complicada oratória e dialéctica, não já quem tem razão, mas o que querem dizer com tantas e tais palavras?

Quando o país dos políticos se divorcia do país real, o que é natural é que as eleições sejam uma vitória da abstenção. No fundo, votar ou não votar tanto faz, porque a qualidade que os profissionais da “arte do possível” evidenciam é sempre idêntica a si mesma, seja A ou B que ocupe as cadeiras das decisões.

Muito mais, quando existe a sensação latente de que, como na ida às urnas de hoje, essas cadeiras ficam para lá, algures na Europa, onde mandam os países com poder e obedecem os que só comem as migalhas que estes lhes deixam.




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