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Vícios legalizados ou reprimidos?

É urgente saber distinguir tantos vícios tolerados, legalizados e aqueles que devem ser reprimidos

N/D
14 Jun 2004

No rescaldo dos primeiros jogos de futebol do Euro 2004 e das eleições europeias como que se torna difícil falar ou mesmo atender a outros aspectos que não sejam aqueles mais próximos acontecimentos do nosso colectivo nacional… Nessa vexilomania (= exaltação da bandeira) portuguesa à custa do futebol.
Ora como qualquer reflexão minimamente séria precisa de distanciamento crítico, afectivo e temporal, suplicamos a quem nos queira ler que nos proporcione desculpas de menor “actualidade” deste nosso «espaço aberto», embora com alguma perspectiva de linguagem adequada a certas questões do momento.

Com efeito, recentemente foram tornadas públicas intenções de medidas para o combate a curto e médio prazo sobre a questão (sócio-sanitária) do tabaco, enquanto vício privado com implicações públicas. Cresce a sensibilidade às implicações multi-danosas de quem fuma e daquilo que este “direito” tem sobre os
não-fumadores.

As medidas anunciadas passam pela proibição de fumar em espaços que tenham a presença de público – nalguns casos como o número de cinquenta pessoas por café ou restaurante – onde se possa considerar maléfico o fumo expelido por qualquer fumador.

Outra vertente trazida à reflexão foi a questão da droga com números assustadores de consumo entre os estudantes pré-universitários. Segundo dados fiáveis, mais de um terço daqueles já terá experimentado o “prazer” de algumas drogas não-toleradas, como cannabis e sobretudo ecstasy.

Quando se pensava que os exemplos/testemunhos tinham deixado marcas de repulsa em relação à droga, vemos que a sede de experimentação – segundo alguns mais entendidos na matéria, mesmo de prevenção – seduziu mais do que foi capaz de evitar novos/as consumidores.

As propostas de jogo – enquanto realidade social e iniciativa de ganhar depressa aquilo que poderia levar mais tempo a conquistar – são cada vez mais claras, desejadas e vencedoras. Quantas pessoas se têm tornado viciadas em jogos legais/legalizados bem como frequentadoras de espaços criados para ganhar dinheiro à custa da ambição de outrem: casino ou bingo, lotarias ou apostas, e o problema – segundo dizem – é entrar na máquina de querer vir a ser rico, à custa da sorte e do azar!

As vertentes de prostituição – ao nível público ou publicitado – não se reduzem mais só ao sexo feminino como oferta, mas também a procura reveste outras dimensões anteriormente encaixotadas, mas agora trazidas para fora do armário. Recentes investigações fizeram olhar com outra visão sinais escondidos por relações familiares menos correctas, por pressões sócio-afectivas mais deficientes e até por cumplicidades toleradas.

Já se fala com mais “naturalidade” de prostituição masculina, mesmo que travestida de novos modelos de (pseudo)-família. Desta forma o prazer e vida como que se tornam contraditórios, mesmo em linguagem cristã e católica!

Tendo em conta a pedincho-dependência, que tenta colmatar deficientes salários, ainda somos um país onde prolifera a gorjeta: essa instituição que gratifica os empregados mais atenciosos ou mais ou menos espertos à custa do trabalho que deviam fazer com honestidade e competência.

Quem não terá dado de caras com essa “caixa” de boas festas com que os balcões nos saúdam pela época do Natal? Quem não será surpreendido com simpatias de gancho em certas superfícies comerciais e restaurantes? Ora, segundo parece, a gorjeta é taxada com impostos que “oneram” os beneficiados. E estes sentem-se no direito de reclamar salários justos, esquecendo as benesses trazidas pelos serviços não contabilizados. Este vício privado quer agora tornar-se virtude pública… ao menos no suporte de regalias adquiridas!

É urgente saber distinguir tantos vícios tolerados, legalizados e aqueles que devem ser reprimidos. Enquanto o quadro de valores tiver por tabela a esperteza e o conluio será difícil desmontar tantos interesses.

Assim haja cristãos de Evangelho como legisladores, como fiscalizadores e, sobretudo, como cumpridores da legitimidade de uma sociedade mais justa, fraterna e civilizada. De tal forma como o cremos, assim o esperamos!




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