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A serpente e a pomba no far west social

Claudio Magris termina lembrando que, sem lei, não há ordem nem liberdade

N/D
13 Jun 2004

Os dias estão mais – quer dizer, ainda mais – convidativos para o futebol do que para a literatura. Por isso era, ontem, mais fácil encontrar um artigo sobre a mulher de um jogador de futebol do que a notícia da atribuição do Prémio Príncipe das Astúrias das Letras, um dos mais relevantes prémios literários internacionais, a Claudio Magris. O escritor italiano não é apenas o autor de Danúbio (Lisboa: D. Quixote, 1992), uma das mais fascinantes obras da literatura contemporânea.
Ele é também um ensaísta incontornável. No momento em que se realizam as eleições para o Parlamento Europeu, vale a pena recordar um texto intitulado “A bolsa dos valores”, incluído na obra Utopía y desencanto. Historias, esperanzas e ilusiones de la modernidad, (Barcelona: Anagrama, 2001).

O escritor começa por comentar uma das queixas mais comuns sobre a Europa, acusada de ser um espaço monetário carente de alma. O espírito e a economia não são antitéticos, diz o escritor, que julga que «o espírito – que orienta a vida e a acção segundo valores assumidos como fundamentais – só é autêntico se se traduz no modo de ser e de operar, se se converte, portanto, também num modo de ver e de fazer economia, de lhe dar sentido». Magris sublinha que importa reivindicar os valores e a sua exigência num momento em que, cada vez mais, se considera a vida em termos de necessidade, eficiência, utilidade. «Mas, mesmo neste caso, não há que contrapor os valores às necessidades, pois os valores têm de inspirar a forma como se consideram as necessidades, como elas são satisfeitas, ou como elas são sacrificadas em nome de algo que lhes é superior».

Acontece que, segundo Claudio Magris, à Europa depois de Maastricht «falta a consciência e a defesa do princípio do valor, dessa exigência de valores universais que constitui, desde há mais de dois milénios, a essência da civilização europeia», ameaçada hoje pelo «crescente nivelamento das diversidades», das «peculiaridades individuais», e pela sua «selvagem atomização», que «idolatra e isola as diversidades numa negação de toda a universalidade». Neste contexto, defende Magris, na sociedade multiétnica e multicultural do futuro, como a Europa sempre será, é cada vez mais imperioso, «para manter o mais aberto possível o espírito de diálogo e de fraterna aceitação das diversidades, estabelecer um irrenunciável quantum de universalismo ético, não sacrificável em nenhum caso».
O primado do indivíduo é algo que não pode deixar de ser básico, afirma o escritor, que traça o percurso de um valor milenar, que as transformações sociais, que criaram e criam tantas liberdades, correm o risco de, paradoxalmente, pôr em perigo. Ameaçada, observa também Claudio Magris, parece estar também a racionalidade, «fustigada por um cada vez mais difuso irracionalismo, por uma amálgama de ocultismo e superstição».

É necessário «um pensamento forte capaz de estabelecer hierarquias de valores, de eleger e, por conseguinte, dar liberdade, de proporcionar ao indivíduo a força para resistir às pressões que o ameaçam e à fábrica de opiniões e de slogans». Não é em vão, sustenta o escritor, que «o totalitarismo brando e colidal dos meios de comunicação está confiado a gelatinosas ideologias débeis, que deixam o indivíduo indefeso à mercê das forças anónimas que o manipulam, despojando-o dessa astúcia da serpente (essa consciência dos conflitos) sem a qual, como está escrito no Evangelho, não há sequer uma autêntica simplicidade de pomba».

Outro dos valores que Claudio Magris diz que se deve defender ou recuperar é o do «sentido de Estado». É preciso estar contra os que desejam a dissolução do Estado «de forma cada vez mais visceral e furibunda». Não é por acaso que, os que negam o Estado, negam também o direito, pretendendo que este seja cada vez mais substituído – «na regulamentação e no governo das coisas» – pela economia. Magris crê que «numa rede cada vez mais complexa de relações directas e indirectas entre agentes de diversa índole e força, é difícil pensar que um mecanismo auto-regulativo seja suficiente para tutelar todas as partes, algumas com maior e outras com menor capacidade para se defender».

O Estado, detestado pelos ultra liberais, que, na selva ou no Far West social, recusam qualquer tipo de apoio estatal aos mais débeis, é igualmente mal servido pelos «estatólatras», que fazem do Estado um valor absoluto e «esquecem que ele está ao serviço do indivíduo – de todos os cidadãos».

Claudio Magris termina lembrando que, sem lei, não há ordem nem liberdade. «O eclipse do direito deixa o mundo, diriam os romanos, à mercê dos latrones». Eles estão, evidentemente, entre os principais adversários de uma Europa dos cidadãos.




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