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“A Paixão”, um filme anti-romano

1Os preconceitos de Ester Mucznik O cinema que hoje se vê, é quase todo americano. Em tempos, este cinema americano tinha muita qualidade, muita variedade, muito maior sentido estético, era menos violento, mais nobre, mais moralista, mais independente talvez; e vivia menos à custa dos efeitos especiais. Hoje, Hollywood domina por completo os sistemas de distribuição mundial e é mais que nunca um veículo de propaganda do “american way of life”. Por tudo isto, eu vou pouco ao cinema.

N/D
13 Jun 2004

Porém, há filmes incontornáveis. A “Paixão de Cristo” foi apontada como um deles; e para mais, vinha com o condimento de veicular uma interpretação “anti-semítica”, anti-judaica dos factos. Estranhei de imediato, pois o filme fora feito à sombra de Hollywood. E Hollywood tem sido, desde os seus alvores, uma coutada de produtores de origem quase exclusivamente judaica, para os quais trabalham um sem-número de realizadores ideologicamente subservientes, na sua maioria. Portanto, quando a “esmola” é grande, o pobre desconfia…

Contudo, o realizador era Mel Gibson, apresentado como um católico devoto, de origem americano-irlandesa. Daí a dúvida. A esperança numa realização independente por parte de Gibson, saiu para mim reforçada quando, antes de eu ver o filme, ouvi na rádio uma pequena entrevista de Ester Mucznik, uma representante dos judeus portugueses. Esta senhora falou contudo provavelmente sem ter ainda visto o filme. Mas logo o qualificou de anti-judaico, disse que os israelitas eram os “maus da fita”, os mais feios, com uns narizes não sei como.

2. A “2.ª Paixão” de Mel Gibson
Vá-se lá saber porquê, o último grande filme a que Mel Gibson esteve associado, “Braveheart”, incluía também uma prolongada cena de execução. Uma execução com todos os detalhes que fazem as “delícias” de todos os adeptos de todas as Idades Médias (das antigas e das modernas…). A vítima era o célebre líder nacionalista escocês Wil. Wallace (m. 1305) e o “mau da fita” um grande rei inglês, Eduardo I (1239-1307). E era o próprio Mel que fazia o papel de supliciado. Pelos vistos, os senhores de Hollywood acham que Mel revelou talento para cenas de sado-masoquismo. Daí que na “Paixão de Cristo” ele já pôde explorar o tema do sofrimento físico humano por cerca de duas horas, não apenas os “escassos” dez minutos de “Braveheart”.

3. Uma Ressurreição quase furtiva, num filme sado-masoquista
Um dos aspectos menos favoráveis ao Cristianismo, neste filme, é que o Cristo Ressuscitado que dá sentido à Fé cristã (e ao próprio filme) só aparece durante cerca de um minuto (e nas cenas finais) de uma película com a duração de mais de duas horas!

Até lá, o espectador é obrigado a presenciar toda a variedade de humilhações e sevícias. Desde as intermináveis chicoteadas às cavilhas pregadas nos pés e mãos; desde a coroa de espinhos ao carregar e equilibrar o madeiro; desde a lançada nas costelas à esponja com vinagre… Mas é curioso: apesar da brutalidade, pouco sangue se vê correr, em obediência a cânones da cinematografia americana (e eventualmente da religião judaica dos seus patrões…). Ora, Cristo que só sofre e não triunfa, não pode ser atractivo, não vai seduzir os agnósticos nem os de outras reli-giões. Apesar de ter cenas bastantes comoventes, o filme não é pois autenticamente apologético, não resulta pro-cristão.

4. Uns judeus sábios, dignos e bem vestidos
Coerentemente, os dirigentes israelitas do Sinédrio são apresentados como uns senhores bem vestidos, com belas túnicas negras e brancas, desfilando tão organizadamente como os legionários, por modo a que os espectadores (e os ocupantes romanos…) percebam a sua unanimidade com vista à defesa da sua velha religião monoteísta e das suas tradições. Em muitos dos seus rostos transparece sabedoria, dignidade ou nobreza. Em todos os outros, humanidade ou espírito prático.

O próprio Judas tem “boa cara”. A Verónica, essa então é de uma espiritualidade quase astral. São Pedro não está nada mal escolhido. E Herodes é um achado: parece o arquétipo do moderno judeu asquenazita do norte da Europa e Estados Unidos, manhoso, vicioso, mas ponderado e capaz mesmo de algum temperamental e inesperado gesto de bonomia. Só José de Arimateia destoa, parecendo nada corresponder ao relato evangélico.

Os líderes judeus são retratados de tal forma que, à semelhança do que se passa nos nossos dias, tudo parecem telecomandar e dirigir à distância. Inclusive as decisões dos próprios romanos. Parecem profeticamente significar “somo-vos superiores; toleramos a vossa passageira usurpação da nossa Pátria, mas estamos certos de que temos as chaves intelectuais para, num dia não muito distante, conquistarmos a vossa Roma”.

5. Uns romanos sedentos de sangue
Um dos principais méritos do filme foi pôr os judeus a falar aramaico e os italianos a falar latim. Vieram-me as lágrimas aos olhos quando me apercebi de que naquele cenário teológico, se falava também a minha língua, o latim, que nada mais é que português arcaico. Já incongruente é contudo o facto de Pilatos falar para os judeus na língua destes e não na língua romana de conquistador.
Mas o pior do filme de Gibson é o ter retratado a tropa romana como tendo um especial deleite em torturar a Pessoa de Cristo, a quem o próprio Pilatos quis salvar…

É um disparate sem qualquer apoio nos relatos históricos ou evangélicos. Cristo, aparentemente até nunca terá sido hostil aos latinos (disse mesmo uma vez, “a César o que é de César”). Se o propósito de Gibson era, deste modo, desviar as atenções da “culpa” judaica no deicídio, a tentativa sairá frustrada, porque carregou demais nas tintas. Se eu fosse um católico italiano sentia-me até ofendido.

6. O Diabo
O filme inclui também o Diabo como uma figura central e poderosa, mas esquiva. É um demónio de espectro germanizante e meio travestido, talvez um transexual. As razões que levaram Gibson a escolher um Diabo nórdico, devem ser as mesmas pelas quais erradamente demonizou Eduardo I (e os ingleses) em “Braveheart”. Já a ideia de um Diabo de sexo duvidoso pode conter alguma mensagem subliminar digna da mais elevada atenção. Sobretudo para quem está habituado a ler na pontiaguda pêra da figura tradicional (quase “kitsch”) do “Anjo do Mal” uma alusão crítica aos hoje corriqueiros exageros do Machismo e da Lubricidade clássicas. Comparativamente “mais normais” que os patológicos vícios do sado-masoquismo e do Satanismo.




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