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Paradoxais europeus

Em ano de eleições europeias, o Conselho Europeu reconheceu as evidências. A Europa perdeu, uma vez mais, terreno na escala mundial. Está menos competitiva. Perde investimento. Tem mais desemprego. Perdeu terreno na inovação, face à já líder América.

N/D
11 Jun 2004

Uns atribuem este fracasso à falta de líderes europeus, ao falhanço da actual Comissão, quase tão fraca como a presidida por Santer. Longe do protagonismo e do voluntarismo do Senhor Europa dos anos 80, Delors.
Outros atribuem o falhanço à falta de políticas comuns em todos os domínios. Vêem na constituição europeia a sagração do ideal comum. Como se o mundo actual se fizesse de ideias vagas.

Muitos insistem em ver na Europa providência o último bastião da civilização, dos direitos humanos, das regalias sociais e laborais impares.

E todos em uníssono, pregam o alargamento europeu – agora a 25, amanhã à Turquia, quiçá a Marrocos – e porque não já agora Cabo Verde – querendo dar regalias sem limite a um espaço económico que não as pode sustentar (veja-se o caso da “reprimenda” da Comissão às políticas laborais de Bagão Félix e ao desemprego nacional – como se a Europa fosse algum exemplo decente ou caminho a seguir neste domínio).

E a recente proposta de harmonização fiscal por cima, proposta por França e Alemanha, para impedirem o desenvolvimento das periféricas mas pujantes Estónia e Irlanda, são o último suspiro do condenado Estado providência.

Enfim, a quase totalidade dos políticos promete miragens. E um arco central de eleitores, crê ou deixa que lhe imponham uma construção europeia insustentável e contraditória.

O mundo há muito que mudou. A globalização, com a livre circulação de capitais, pessoas e bens, torna impossível reter capitais, e torna imperativo aceitar a importação de bens da Ásia e da América.

O ambiente empresarial europeu caracteriza-se portanto pela estratégia de tenaz das políticas europeias. Assegurar todas e mais algumas políticas sociais pagas pelos impostos excessivos e manter uma rigidez e custos indirectos laborais insuportáveis. E fora da Europa, à distância de horas ou dias de transporte, as empresas encontram atractivos ao investimento, baixos impostos, mão-de-obra abundante e formada.

Não admira que se mudem para lá. Cá os políticos ainda andam calados. Porque fazem de conta que não vêm a deslo-calização de indústrias que em massa escolhem o leste, África, a América ou a Ásia. Na Alemanha o “patriotismo” dos patrões foi requerido pelo nacional chanceler socialista. Schroeder apelou para não se mudarem para o leste, onde tudo é melhor.

Mas o rei vai nu. A Europa de contradições entre as suas políticas internas, a sua mensagem para o mundo, está a exterminar a sua riqueza interna, as suas empresas, o seu crescimento, fazendo como que seja muito mais vantajoso investir, contratar noutras regiões do mundo e exportar depois para a Europa. Onde cada vez mais um exército de desempregados e excluídos se tornam consumidores, à custa do estado providência insustentável.

Os políticos europeus, tão tentados a dourar a pílula e encontrar grandes desígnios e obras de fachada, não vêem ou não sabem que as obras públicas e os incentivos que de Bruxelas criam, não podem combater as dinâmicas económicas mundiais, que se fazem de custos e de receitas ao nível micro, em cada empresa.

Nos EUA, o nosso eterno competidor, há muito que sucessivos Governos já perceberam que baixas taxas de juro e regulares descidas de impostos, são a melhor forma de estimular consumidores e investidores a decidirem como aplicar os seus recursos, uma mola económica. E apesar de liderarem a globalização e de terem criado a NAFTA (abrindo o mercado ao ex-pobre México), não perderam empregos nem indústrias, antes os reconverteram com sucesso. Porquê? Porque não se refugiam em agendas vagas e globais que esquecem problemas reais e estruturais, como a rigidez laboral, o excesso de Estado e de “direitos ou conquistas sociais”.

O paradoxo de abrir fronteiras e de querer manter a economia providência em autarcia é insustentável, e isso sim explica, a estagnação, o desemprego e a perda de ritmo de crescimento face aos EUA e face à Ásia.

Atacar as suas causas significa tirar a cabeça da areia e ser radical nos programas a apresentar. E apesar do pântano central das práticas e das ideias dominantes em que continuamos enfiados, as eleições europeias poderiam ser um excelente pretexto para discutir verdadeiramente a Europa. Em breve veremos se serão os candidatos capazes de se afastar da ideologia estafada que domina o modelo europeu. Ou se apenas, e como tudo já indica, vão transformar estas eleições numas primárias das legislativas.

E atendendo ao paralelismo sobre a tinta já escrita sobre os disparates das presidenciais, vamos ficar por uma retórica para consumo interno.




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