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A época dos incêndios

Confesso que não gosto nada de ouvir falar na época dos incêndios. Não apenas por causa dos efeitos devastadores que estes provocam mas porque se pode gerar a ideia de que os incêndios são algo que tem que acontecer. Assim como há a época das cerejas e a época das amoras, também há a época dos incêndios. Quer dizer: chegada aquela altura, as matas começam a arder.

N/D
10 Jun 2004

Nada mais errado. Os incêndios não são uma fatalidade. Não são algo que o homem não possa evitar. As matas ardem porque, consciente ou inconscientemente, os homens contribuem para que ardam. Porque, imprudentemente, se fazem queimadas. Porque, imprudentemente, se lançam para o seu interior pontas de cigarro e produtos inflamáveis. Porque se fazem piqueniques sem as devidas precauções. Porque as matas deixaram de ser limpas, praticamente desde que se deixou de andar à caruma e de roçar o mato. Porque mãos criminosas ateiam incêndios.
Uma vez que os incêndios não são algo de inevitável, mas se devem à incúria, à malvadez ou à ambição dos homens, devem ser prevenidos. E no esforço de prevenção há que insistir, muito, na cultura da responsabilidade. Responsabilidade que leva o indivíduo a convencer-se de que tem deveres a cumprir, e um destes é o de respeitar a natureza.

Responsabilidade que leva o indivíduo a não tomar atitudes irreflectidas. Responsabilidade que leva o indivíduo a não praticar actos de vingança e a tomar consciência de que há processos ilegítimos de enriquecer. Responsabilidade que leva as pessoas a tomarem consciência do bem que são, para todos nós, as áreas de floresta.

Quando uma floresta arde todos perdemos. É um pulmão que desaparece. Empobrece o património comum. E exige-se dos bombeiros um trabalho perfeitamente dispensável.

Os Bispos das dioceses do Centro do País – Aveiro, Coimbra, Guarda, Leiria, Portalegre e Castelo Branco – publicaram há meses uma nota em que alertam para que se não repita a tragédia que aconteceu o ano passado.

Dizem que «as precauções desejadas e procuradas têm de chegar a tempo, ser operativas e envolver, de modo responsável, os proprietários das florestas, os serviços do Estado com os seus meios técnicos e mais formas de apoio, as associações de bombeiros, as populações, as autarquias e outras instituições do meio».

Quer dizer: a prevenção dos incêndios é uma tarefa que toca a todos.

Recomendam aos párocos que «esclareçam a consciência dos fiéis, deixando bem clara a gravidade moral do acto de quem provoca, conscientemente, os incêndios ou de quem presta pouca atenção a hábitos e descuidos que lhes podem dar origem».

Solicitam aos párocos, aos educadores e aos meios de comunicação social que se «empenhem na educação da gente nova para que se abra a esta dolorosa realidade. Recomendem a sua inscrição nas associações dos bombeiros locais e noutras que defendem o património em todas as suas expressões e riqueza, e ajudem-nos a adquirir, para a vida do dia a dia, hábitos mais consentâneos com a promoção dos valores morais, que lhes permitam uma vivência solidária e responsável em comunidade».

E aqueles Bispos lembram, a terminar a sua nota: «Prevenir os incêndios, promover a florestação e defender a floresta é contribuir para o bem das pessoas, das populações, do país e da humanidade».

Que ninguém se recuse a fazê-lo.




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