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790. Meu caro Zé:

1 A vida nacional está uma droga! E não bastando já o garrote da crise, andam agora certos políticos, seja no Parlamento, seja na campanha eleitoral, numa suja guerrilha verbal com recurso à linguagem de caserna, que até enoja!

N/D
9 Jun 2004

E tu, meio bonzo, meio abananado, perguntas:

– Mas, então é com gente desta que o país vai para a frente? Que temos garantias de um futuro melhor?

Obviamente que não, meu velho. E é esta forma de estar rasca, este primitivismo político que faz, muitas vezes, do Estado e das Nações instrumentos de dominação e tirania. A história do mundo está repleta de exemplos, de maus exemplos!

Por isso, de tempos a tempos, dá gosto saborear na imprensa diária nacos de prosa ou histórias de vida que nos dizem nem tudo ir mal neste reino de Aquém! Li, por exemplo, em tempos, que na Alemanha, o Estado se tem visto e desejado para dar cumprimento ao seu papel de verdadeiro chapéu do cidadão. Eis alguns:

– Ralf J. sofre de alergia à Alemanha e, porque é vítima de constantes depressões, consegue, através do tribunal, uma vida de luxo, em Miami, com apartamento junto à praia e pago pelo Estado;

– Em Luneberg, um juiz obriga o Estado a pagar a mochila escolar mais cara do mercado à filha de um cidadão sem meios, para que a criança não se sinta discriminada junto dos companheiros;

– Karlheinx Friedrich, impotente sexualmente, após um acidente, consegue que o Estado lhe subsidie, através de cápsulas injectáveis, os seus orgasmos;

– Um professor de Direito, reformado precocemente, obriga o Estado a pagar-lhe renda de casa, alimentação, vestuário, telefone e taxa de televisão.

E mais: recentemente, veio-nos da Austrália a notícia de que foi decretado para todos os animais o direito a três dias, por ano, de férias, isto é, gozo em liberdade de amplos espaços, longe dos currais, pocilgas e capoeiras!

Que tal, meu velho? Isto até parece anedota, mas não é. E só mostra, no fundo, que os Estados têm obrigações intrínsecas que não querem ou fogem a cumprir.

2. Claro, muitas vezes pensamos que o Estado que temos, o Estado que queremos, apenas deve cumprir as suas funções mais básicas: cobrar impostos, aplicar a justiça, zelar pela segurança de pessoas e bens.

Mas tu devias saber que a vida das pessoas, a vida moderna das pessoas é muito mais do que isso. A felicidade, o bem-estar, a qualidade de vida por que cada cidadão deve lutar são direitos que nem sempre estão nas preocupações e prioridades dos Estados, nos seus desígnios ideológicos e políticos.

Por isso é que, caro Zé, nos confrontamos com Estados-Polícia, Estados-Dilator, Estados-Centralizador, Estados-Dominador, Estados-Pirata, num permanente desafio à capacidade individual e colectiva de influenciar e mudar tais filosofias políticas. O que só se consegue, não tanto pelo simples acto de votar, mas pela acção e participação na res-publica!

E se os Estados-Providência foram, em tempos não muito remotos, o guarda-sol sob que se abrigaram homens e instituições e daí recolhendo os benefícios da segurança e protecção individual e social, modernamente suportados pelos novos conceitos político-económicos neo-liberais, economicistas e selvagens, vão deixando pouco espaço de manobra e de luta ao cidadão cada vez mais desprotegido e indefeso.

E muito menos dando lugar a casos, como os da Alemanha e da Austrália, acima citados, que, concretamente nesta ilustre casa lusitana, e como as coisas vão, não passam de enormes miragens, de miríficas luzinhas ao fundo do túnel!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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