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O 25 de Abril

Trinta anos ainda não será o suficiente para os historiadores apreciarem os efeitos da revolução abrilina

N/D
8 Jun 2004

Celebrou-se, há semanas, o trigésimo aniversário da revolução do 25 de Abril e dos dez mil novecentos e cinquenta dias da evolução que o país obteve, após o derrube do regime anterior.
A comemoração foi salientada por um jogo de palavras que duas facções do poder resolveram fazer, ou seja, a esquerda salientou a revolução e a direita empolgou a evolução (revolução sem «r»).

Foi um duelo entre o perfume da flor e o sobreiro do fruto.

Como que uma verdadeira revolução não implique evolução política e social e como que uma evolução de trinta anos não constitua uma verdadeira revolução nos usos e costumes da pátria.

Falou-se, ainda, em democracia sem «d» e em liberdade sem «l».

Enfim, foram uns jogos florais feitos a partir da semântica dos termos e com base na ortografia das palavras.

Isto é o resultado de alguns quererem ser donos excluídos da revolução e de os «escorraçados» tentarem fazer valer os seus direitos.

No auge da disputa, para confundir os antagonistas, muitos perguntavam:

– Onde estavas no 25 de Abril?…

Ainda ninguém respondeu: «A cumprir o meu dever, no trabalho diário».

A história analisará futuramente o 25 de Abril e, certamente, não vai esquecer a «ala liberal» parlamentar, o papel da imprensa, a influência do teatro, a luta dos perseguidos políticos de todos os quadrantes e o papel de toda a sociedade na ultimação revolucionária.

Por isso, o dono da revolução é todo o povo português, sem esquecer os capitães de Abril.

No duelo verbal, ninguém levou em conta que a democracia não é uma fala ou uma escrita, uma discussão ou um torneio verbal, mas sim uma práxis, isto é, uma prática realizada no concreto do dia a dia.

Um verdadeiro democrata não precisa andar todos os dias a auto-proclamar-se como tal, porque a sua maneira de viver e de fazer isso indica a todos quantos lidam com ele. O contrário também é válido.

E, se tem necessidade de se afirmar como tal, é porque os outros, baseados no seu proceder na sociedade, não lhe reconhecem tal estatuto.

Mal vai o cristão que tem necessidade de todos os dias andar a espalhar farisaicamente, as esmolas que dá ou as boas obras que faz.

Trinta anos ainda não será o suficiente para os historiadores apreciarem os efeitos da revolução abrilina.

Para já, não lhe reconhecer efeitos positivos no granjeio da liberdade, no bem-estar social, no aumento do nível da vida, na subida dos salários e posto de trabalho, é negar a evidência dos factos.

Mas, não ver que muitas coisas não correram como o prometido e o desejado, que há abusos e aproveitamentos pessoais, será também uma temeridade de que devemos fugir.

Aguardemos, pois, mais algum tempo e deixemos a história definir e proclamar o seu veredicto.




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