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No rasto da Europa

O projecto histórico da unidade europeia é muito mais do que um mealheiro paradistribuir pelos países mais pobres

N/D
8 Jun 2004

As eleições europeias aproximam-se e pelo ambiente da pré-campanha e da campanha eleitoral adivinha-se que se esclarecerá pouco o eleitorado sobre os problemas e as ambições ou caminhos do projecto europeu, agora com vinte e cinco caminhantes.

O eleitorado, consciente ademais da importância apenas relativa destas eleições no que respeita ao curso da política nacional, parece ir corresponder, dizem as sondagens em Portugal e nos outros países da União, com uma forte abstenção nas urnas.

Nas linhas que se seguem, porém, também não me proponho “usurpar” as funções dos candidatos a eurodeputados e das estruturas partidárias de apoio no esclarecimento dos assuntos momentosos relativos à União Europeia ou dos mais pertinentes para Portugal, como sejam as oportunidades e riscos do recente alargamento. É meu propósito desafiar o leitor a seguir, numa referência forçosamente abreviada devido à natureza deste espaço, a emergência do conceito de Europa e a evolução do projecto de unidade europeia ao longo dos últimos séculos.

Por 520 a.C. o grego Hecateu de Mileto divide a Terra emersa em três continentes: a Europa, o maior de todos, à qual faziam companhia a Ásia e a Líbia. Um pouco depois, no século V a.C., Heródoto, interrogando-se sobre a utilidade de dividir uma Terra que entende como uma, diz não saber se a Europa (que será maior do que a Líbia e a Ásia em conjunto) é rodeada por água no levante e no norte.

Alguns séculos mais tarde, Estrabão, confessando também alguma perplexidade perante as divisões propostas para a Terra conhecida, diz crer que a Líbia será mais pequena do que a Europa e acrescenta por sua vez, agora algo mais acertadamente, que estes dois continentes juntos são menores do que Ásia. A concepção geográfica da Europa, muito diferente face ao que hoje está estabelecido, afirma-se, pois, desde há cerca de 2500 anos.

A formatação geográfica e, sobretudo, civilizacional da Europa, tal como hoje a entendemos, é bem mais tardia e arrastada no tempo. A queda do Império Romano do Ocidente (476) e posterior conquista árabe da região envolvente à Península Arábica, de África e da Península Ibérica (622-711) “acantonou” a área cristã para o norte do Mediterrâneo.

Com o império de Carlos Magno (800) observar-se-á a junção de elementos nórdicos ou bárbaros (sensivelmente o espaço da actual Alemanha) com elementos latinizados do sul (compreendendo o que é hoje o território da França até à marca de Espanha, na Catalunha actual, e centro-norte da Itália), prefigurando-se em termos culturais e civilizacionais a actual Europa.

Porém, este império será relativamente breve e ainda territorialmente escasso face à definitiva forma da Europa, posteriormente desenhada. Cultural e politicamente, a Europa, isto é, um vasto espaço a norte do Mediterrâneo, definir-se-á durante o período medieval fundamentalmente sob a capa de “cristandade”, ainda que a partir do cisma do século XI esta cristandade, sedeada em Roma, represente sobretudo a parte ocidental do continente.

Com a fractura protestante observada no século XVI na Europa Ocidental, o qualificativo cristandade começa a revelar-se exíguo, insuficiente para clarificar as diferenças observadas na área cristã. Emerge então de forma progressiva uma identidade cultural e civilizacional que se auto-designa como europeia. Os diferentes países europeus guerreiam-se recorrentemente (na procura de mais poder e terras ou procurando combater a hegemonia de algum país mais forte, através de coligações de potências menores) mas também são capazes de assumir uma identidade comum, designadamente contra o poderoso vizinho turco.

No século XVIII o abade de S. Pierre propõe um “Tratado de Paz Perpétua” para a Europa, o qual seria garantido por coligação de interesses dos diferentes reinos, enquanto que Anacharsis Cloots, radicalíssimo, propõe mesmo uma República humana, composta pelas secções francesa, germânica, britânica, etc. Então, a identidade comum da Europa, a despeito das guerras que se repetem, está no espírito das elites, que em todos os países europeus falam francês.

Mas a revolução francesa (1789) inverterá o processo. A oposição das diferentes monarquias europeias ao radicalismo e depois ao imperialismo, em França, fomentará o nascimento do nacionalismo francês. Em França como a pátria está em perigo a “nação” agora é que interessa relevar e salvar e, por isso, a Europa deixa de ser cativante. No século XIX o nacionalismo, num processo ora de secessão ora de agregação, propiciará mesmo o nascimento de novas nações na Europa, como sejam a Grécia, a Bélgica, a Itália ou a Alemanha.

Ainda nos séculos XIX e XX a industrialização das principais potências europeias (que requer mais mercados), a militarização e o nacionalismo originam disputas por mais espaços no território vizinho ou nas colónias mais afastadas. A França e a Prússia/Alemanha estarão em guerra por 1870 e depois, de novo em campos opostos, conjuntamente com a Europa e boa parte do mundo, destruir-se-ão em duas guerras mundiais no século XX (que contribuem decisivamente para o fim da hegemonia europeia no mundo).

Em 1957, sob o impulso de Schuman e Monnet, seis países criam a C.E.E., denotando que aprenderam as lições da História. Por comparação com o passado, mais Europa significará, na perspectiva dos mais integradores, menos possibilidade de guerras enquanto que mais pátria e nacionalismo, ao invés, mais possibilidade para que estas se repitam.

Pelo meio, esperam também que um vasto mercado propicie crescimento económico sem recurso à invasão ou à rapina. Posteriormente, a Europa aprofunda-se, sem que tenha chegado ainda aos “Estados Unidos da Europa”, profetizados por Victor Hugo no século XIX.

De qualquer modo, o projecto histórico da unidade europeia é muito mais do que um mealheiro para distribuir pelos países mais pobres, contrariamente às pretensões de algumas vozes “mais patrióticas” (vide declarações do líder do governo da Madeira) que até ameaçam com o abandono da União se as vantagens financeiras da integração deixarem de ser palpáveis.




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