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Uma Europa a longo prazo

Os assuntos ambientais possuem, em geral, quatro características: em primeiro lugar, comportam a noção de risco; em segundo, estão associados a processos longos; em terceiro, são caracterizados pela incerteza científica; e, finalmente, estão rodeados por uma grande complexidade técnica, observa o jornalista Ricardo Garcia num livro bastante útil, intitulado Sobre a Terra. Um guia para quem lê e escreve sobre ambiente (Lisboa: PÚBLICO, 2004).

N/D
6 Jun 2004

As três últimas características complicam, de algum modo, o tratamento mediático das questões ambientais. O facto de, por exemplo, os media serem pressionados a falar sobretudo do que é mais imediato, faz com que seja compreensível que sintam dificuldades no momento em que se impõe falar do que se mede em décadas ou séculos como é o caso dos cenários mais alarmantes associados ao aumento de temperatura da Terra, que só são esperados dentro de dezenas de anos, conforme recorda o jornalista, que dá outros exemplos de processos longos.
Os efeitos da protecção ou desprotecção de espécies animais ou vegetais não se observam de uma hora para a outra e, para se declarar a extinção de uma espécie, é necessário esperar que passem 50 anos desde que ela tenha sido vista pela última vez. Do mesmo modo, as consequências indesejáveis de um produto para a saúde só são observáveis anos mais tarde.

Uma grande parte da degradação ambiental do planeta não pode ser observada e, portanto, quase ninguém é capaz de se confrontar com as consequências nocivas das suas acções mais perniciosas, afirmava o Worldwatch Institute no relatório Estado do Mundo 2004 – A Sociedade de Consumo.

Nesse documento, em que se reclamava um novo modo de consumir, o Worldwatch Institute dizia que a mudança de hábitos consumistas requer, frequentemente, a alteração de milhões de decisões individuais, a começar pelas mais comezinhas. Como o Instituto notava, as pessoas são capazes de alterar facilmente as suas rotinas desde que elas concorram, a curto ou – vá lá – a médio prazo, para uma melhoria das suas vidas.

Mas é mais difícil mudar quando se trata de prevenir o que poderá suceder a longo prazo. O curto prazo é também uma tentação a que os políticos, nas autarquias ou nos governos, sucumbem, com demasiada frequência. Uma gestão guiada para satisfazer o imediato comporta evidentemente menos problemas para um tipo de políticos que tem como primeira e principal prioridade a manutenção no poder.

Neste contexto, é interessante reparar numa proposta de reabilitação do longo prazo na política, que tem vindo a ser feita por Daniel Cohn-Bendit (Por la tercera izquierda. Barcelona: Debolsillo, 2000). É preciso uma relação completamente nova com o Tempo, diz ele.

Entre o tempo rápido da eficácia económica, do que se chama o “retorno do investimento”, com as suas bem conhecidas consequências do “horror económico”, e o tempo mais prolongado dos que reclamam uma sociedade que nega ao mercado todo o papel nas mutações sociais, emerge um tempo que não quer prescindir de avaliar o impacto a longo prazo das actividades humanas. “O hoje e o amanhã não se opõem porque o amanhã começa hoje”.

Numa sociedade de riscos, é necessário adoptar o princípio da precaução, um princípio que, diz Cohn-Bendit, não se deve evocar apenas relativamente aos riscos ambientais. “A lógica do rendimento da economia de mercado deve ser ordenada e estruturada por uma lógica de precaução e de responsabilidade. Neste sentido, o princípio da rentabilidade dos mercados não pode ser, de modo algum, o único critério de eficácia económica e social”, acrescenta o eurodeputado.

A proposta de Daniel Cohn-Bendit, que pretende ainda superar a tradicional visão binária da política, pois há oposições que já não são operativas (“o Estado contra o mercado, a liberdade individual contra o laço social… Numa sociedade que fabrica exclusões, cada indivíduo quer, simultaneamente, ser livre e estar ligado aos outros”), é indissociável, afirma ele, da construção europeia. De resto, a Europa “constitui o único espaço em que pode surgir a regulação do mercado e os controlos democráticos que queremos fazer emergir”.




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