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Quando vale tudo, já nada tem valor

Sempre que se abre campo ao vale tudo, caminha-se para o nada vale nada

N/D
4 Jun 2004

Vai-se alargando, para muita gente, a convicção de que, nos tempos que correm, vale tudo. Cada um deve ser respeitado, quaisquer que sejam as suas opções, opiniões, vivências e mesmo comportamentos sociais.

Trata-se do triunfo indiscutível do subjectivo que dá, de imediato, origem à moral de situação e ao relativismo social que mata toda a verdade objectiva e os valores, bem como as normas indispensáveis à vida em sociedade.

Bom ou verdadeiro é o que cada um quer ou lhe interessa que seja. As leis impedem a liberdade individual e, se não pode deixar de ser, aceitam-se, mas sempre contrariamente. Se a transgressão é clara, quem transgride nunca é culpado. Há sempre bodes expiatórios. Em última análise, quem detém a autoridade, seja em que espaço for da vida, é culpado universal.

O reforço legítimo da individualidade atirou assim muita gente para um individualismo insuportável, sempre incómodo, pelo menos para os outros.

Uma sociedade sem valores e sem regras não progride e, por isso mesmo, não tem futuro. A cidadania é uma prerrogativa a fomentar sempre mais, mas é, também, fonte de deveres cívicos, traduzidos em acções e atitudes.

O diálogo e a colaboração, entre pessoas e grupos, são impossíveis, sem uma base indiscutível, aceite por todos. Não se dialoga nem se colabora com emoções, meras opiniões, desprezo por valores éticos universais.

Conviver é viver em comum, não é empurrar, atropelar, desprezar ou desconhecer o outro, que tem, também ele, direito ao seu espaço próprio. A cidadania não é um favor. Ninguém é menos cidadão, se quem está por cima ou ao lado não é da mesma cor ou da mesma opinião.

As legítimas diferenças não destroem a vida em comum, nem na sociedade, nem na família, nem em qualquer grupo ou comunidade de pessoas. Antes a enriquecem, se o respeito e o apreço pelo outro são valores éticos e uma plataforma de entendimento, que visam sempre o melhor para todos.

A vida social não é constituída por génios que se excluem, mas por pessoas normais que somam capacidades de vária ordem para que, unidas, possam ir mais longe do que iria um sozinho, apenas com os seus acólitos.

Nenhuma oposição séria, seja em que campo for, existe para destruir. Justifica-se sempre como apoio necessário para construir. Na política, o Estado até paga à oposição para que realize bem a sua função. Por isso mesmo, também aí, nem tudo pode valer.

A mentalidade de que na vida vale tudo é uma loucura. Entretanto, vai-se destruindo a família, a convivência, a acção política, a escola, o mundo do trabalho, os meios de comunicação social, a riqueza da natureza, o esforço das pessoas honestas e sérias, a possibilidade de colaboração mútua.

Sempre que se abre campo ao vale tudo, caminha-se para o nada vale nada. Resta “o ensaio sobre a cegueira”, bom para pescadores de águas turvas.




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