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Boda real aburguesada

Um futuro rei com um currículo exemplar e uma futura rainha, filha do povo, inteligente, com mestrado em comunicação social, e provas dadas na vida – uma lufada de ar fresco a entrar pelas janelas do palácio real

N/D
4 Jun 2004

Longe vão os tempos em que mulheres plebeias não podiam casar com reis ou príncipes e virem, assim, a tornar-se rainhas. Eram esses recuados tempos do tempo que acabou com o amadurecimento de conceitos do Renascimento e do Humanismo que vieram a desabrochar no século das luzes.
As mulheres plebeias só serviam para amantes dos reis que tinham mais filhos de fora do que do matrimónio. As plebeias eram aquilo a que hoje se poderia chamar objectos descartáveis. Mas o histórico século XVIII debilitou as monarquias de reis absolutos que deram lugar a monarquias parlamentares ou constitucionais, caso da Inglaterra, mas outras desapareceram mesmo, surgindo, em sua substituição, Repúblicas, como aconteceu com a França de Luís XVI.

E o Rei passou a ser, nas novas monarquias, simplesmente figura decorativa, um luxo de países, quase sempre, desenvolvidos. Agora num ou noutro sistema, a soberania reside no povo. Nos dias de hoje, o exemplo de uma monarquia bem moderna apoiada tacitamente por uma maioria qualificada, e até só simbolicamente contestada pelos partidos republicanos, está patente na vizinha Espanha.

Já o exemplo da monarquia britânica não colhe, pois a Rainha ainda está muito agarrada às velhas tradições amaneiradas dos velhos tempos. Impensável ver Isabel II ao volante de um carro utilitário, a passear no centro de Londres, como o faz a Rainha Sofia, no centro de Madrid. Correspondendo aos novos ventos que sopravam do lado de lá dos Pirenéus, surge a Primeira República em Espanha, em fins do século XIX, mas foi sol de pouca dura.

O general Pavía dissolve as cortes e Martínez Campos proclama Afonso XII como rei, em Sagunto. O Rei morre em 1885. Sucede-lhe Afonso XIII em 1886. E quando em 1906, o avô do actual Rei de Espanha se casa, em Madrid, com Dona Vitória Eugénia, a cerimónia foi precedida de alguma polémica política. O facto do Rei vir a eleger uma cônjuge britânica foi entendido como sinal de tendência liberal o que deixava transparecer um rumo diverso. Se isso, hoje, parece estranho, não menos estranho foi o facto da futura Rainha Eugénia ter sido obrigada a converter-se ao catolicismo em condições penosas para a época.

Também houve, por parte de sectores conservadores, alheios à realidade do que é habitual na sociedade espanhola de hoje, um certo mal-estar, quando foi anunciado o casamento do Príncipe de Astúrias com a futura princesa Letizia. Talvez preferissem um casamento de conveniência. Claro que Afonso XIII sofreu ele e a instituição que personificava os efeitos das contradições que acompanham os processos de transição para a democracia.

A sua Monarquia havia perdido já a áurea semi–religiosa do passado remoto e tornava-se necessário que o rei se aproximasse do povo. Foi o que ele fez com simplicidade, familiaridade, por vezes indiscreta, mas sempre simpática, tendo como objectivo principal o interesse colectivo.

Mas, não obstante a sua identificação com o interesse do seu povo, é surpreendido com o Golpe de Estado do general Primo de Rivera, que tem lugar em 1923, forçando-o a abdicar. Não consegue resistir aos ventos de mudança. Mas a ditadura durou pouco tempo, já que é proclamada a República, a 14 de Abril de 1931, após eleições municipais, consideradas estas um plebiscito nacional contra a monarquia. E a nova república consagra já um estado de direito moderno, laico e democrático. E Afonso XIII é aconselhado a retirar-se porque a Guarda Civil não se responsabiliza pela sua segurança.

Há eleições em 1933, e não ganha a esquerda. Mas a seguir, na Primavera de 1934, o mau exemplo vem de onde não se esperava. O PSOE, em desrespeito pelas eleições que tinha dado a vitória à direita, toma o poder pela força e marca novas eleições em 1936. E a Frente Popular ganha e a esquerda mantém-se no poder, apesar do golpe.

Nesta data, começa a guerra civil que termina com a vitória do general Franco em 1939. E o Franquismo acaba com a morte de Franco em 1975. E o actual Rei de Espanha, Juan Carlos I, filho de Don João, conde de Barcelona, quase cem anos depois, recupera a coroa. Em 1977, têm lugar eleições gerais que dão a vitória à CDU.

E a Constituição, aprovada em referendo, é pelo Rei ratificada em 1978. Mas agora com um parlamento eleito pelo povo. Histórico o acordo firmado e com honras constitucionais entre os herdeiros do regime franquista e os democratas que o combateram e que pôs fim ao confronto entre absolutistas e liberais, monárquicos e republicanos, confronto que abarca, com pausas, avanços e recuos a história espanhola desde as invasões francesas de Napoleão em 1808 até à morte do último ditador.

E a Espanha volta a ter um rei mas agora um rei moderno identificado com os tempos de hoje, e que sente na alma o bem e o mal do seu povo. De notar, o gesto de solidariedade de toda a família real que, com profundo pesar, desceu do Palácio e foi ao encontro dos familiares das vítimas do brutal atentado de 11 de Março, e dirigiu-lhes uma palavra de conforto e resignação. Mas a reacção não desarma, e o novo rei é submetido a uma prova crucial para evitar que a Espanha resvale novamente para a ditadura.

Franco ainda estava quente na sepultura. Hábil e com mestria, dirige-se à Nação, sobretudo às forças armadas, e o golpe de 23 de Fevereiro de 1981 – uma intentona, durante a qual o Congresso dos deputados foi ocupado por um pelotão de guardas civis, acaba em frustração. E o Rei reforça a confiança dos Espanhóis. E João Carlos é já tão querido que o juancarlismo, equidistante da república e da monarquia, começa a ganhar corpo e forma, ao ponto de os espanhóis de hoje dizerem que são apenas juancarlitos.

E agora, o que esperar de uma boda real aburguesada? Uma Espanha a caminho de uma monarquia cada vez mais moderna, mais fortalecida e mais identificada com os interesses dos seus concidadãos; um futuro rei com um currículo exemplar e uma futura rainha, filha do povo, inteligente, com mestrado em comunicação social, e provas dadas na vida – uma lufada de ar fresco a entrar pelas janelas do palácio real.

E que tenha a força de trazer para a rua um abraço fraterno e amigo, a todos os súbditos, para que, agora sim, e ainda com mais propriedade, se possa cantar: “Viva a Espanha”.




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