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Ligações ferroviárias do Minho: uma magna e centenária questão

É tempo da região do Minho tomar consciência que não resolverá a estratégica questão das ligações ferroviárias no seu território se não tomar nas suas mãos a conduçãodos seus próprios destinos

N/D
3 Jun 2004

Na abertura da minha penúltima crónica, a propósito da Grande Área Metropolitana do Minho e da sua questionada semelhança com a velha “Casa do Minho”, fundada em Lisboa, em 1923, dei conta aos meus estimados leitores da publicação do primeiro volume da “História da Casa do Minho”, de Armando Santos Martins.

E citei, entre os muitos factos nele relatados, a Lei (de 16.07.1924) que concedeu a Francisco Souza Magalhães o «direito de construção e exploração» da linha-férrea do Vale do Cávado, concessão esta que, infelizmente, veio a caducar em virtude de o dito concessionário não ter iniciado as obras dentro do prazo máximo previsto naquele diploma.

Pois bem, hoje proponho-me continuar a evocação dessa magna e centenária causa, mobilizadora da cidade de Braga e de toda a região minhota que foi a das ligações ferroviárias. E faço-o, citando agora um outro livro de história, cuja leitura vivamente recomendo, “Braga do entardecer da Monarquia ao tempo da 1.ª República (1890-1926)”, da autoria de Amadeu José Campos de Sousa, Mestre graduado pela Universidade do Minho, editado pela Casa do Professor, no passado mês de Maio.

Como é do domínio público, o receio e má compreensão relativamente ao comboio – o monstro a vapor que vomitava fogo e que era apontado como potenciador de incêndios nas searas à margem das quais passava – levaram os bracarenses dos finais de oitocentos a isolarem-se, recusando a passagem da linha do Minho, pelo seu território.

Braga acabou, depois, por ficar (mal) servida pelo ramal de caminho-de-ferro até Nine, de via reduzida. E, quando reconheceram o erro, era tarde.

Por isso, tornando-se «imprescindível remediar essa gafe tremenda», como relata o Diário do Minho de 22/03/1924, impunha-se ligar directamente aquele ramal a Guimarães, com prolongamento até Chaves e, por outro lado, prolongá-lo até Monção ou, pelo menos, aprovar a linha “Braga-Esposende”, com passagem por Barcelos.

Foi esta árdua luta que, desde finais do século XIX, mobilizou as forças vivas de Braga e de outros concelhos do Minho e até da região de Trás-os-Montes.

Entretanto, gorada a ligação ferroviária a Chaves, por opção pela ligação desta cidade à linha do Douro, só em Março de 1904, o ministro das Obras Públicas, Conde de Paçô Vieira, natural de Braga, fez publicar a Portaria que autorizou a construção das linhas de Braga a Guimarães, Braga a Monção e Viana a Ponte da Barca.

Porém, apesar das manifestações de júbilo que então ocorreram em Braga, como nas restantes localidades minhotas que, supostamente, iriam ser servidas por aquelas linhas, certo é que o cidadão inglês, Temple George Blackwood, a quem foi adjudicada a construção e exploração das mesmas, acabou por desistir do projecto.

Em princípios de 1910, o rei D. Manuel deferiu outra proposta para um novo traçado das ligações ferroviárias Braga-Guimarães-Monção que, no entanto, por falta de vontade pública acabaria também por soçobrar.

Em 1920, debalde a Câmara Municipal e a Associação Comercial de Braga pediram ao Governo a ligação, por via eléctrica, entre Braga e as principais cidades do Minho, mantendo a reclamação da ligação ferroviária entre Braga e Monção, com prolongamento à fronteira com Espanha.

O mesmo sucedeu, quatro anos depois, como acima se relembrou, com a projectada linha do Vale do Cávado.

Perante tantas e sempre frustradas promessas e expectativas, creio que é tempo da região do Minho tomar consciência que não resolverá a estratégica questão das ligações ferroviárias no seu território se não tomar nas suas mãos a condução dos seus próprios destinos.

Se a nova e estruturante ligação ferroviária de Braga a Faro, que abrirá ao público no próximo Domingo, demorou mais de cem anos a ser concretizada, creio bem que, se não formos capazes de arredar de vez o centralismo lisboeta, só lá para o início do próximo século disporemos, no Minho, de uma rede ferroviária adequada às necessidades desta bonita e dinâmica região. A palavra e a acção cabe agora aos minhotos. Como diz o velho ditado, quem quer a bolota trepa!




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