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A herança de Champalimaud

Com um testamento bem feito até depois da morte se pode continuar a fazer o bem

N/D
3 Jun 2004

Nos princípios de Maio faleceu o empresário e homem de negócios António Champalimaud.
Na nossa sociedade ainda há quem veja com maus olhos os empresários. Certamente pelos maus exemplos que maus empresários deram e continuam a dar. Talvez porque ainda há gente agarrada à ultrapassada e rançosa ideia da luta de classes, como se trabalhadores e dadores de trabalho não pudessem viver de mãos dadas, colaborando, cada um à sua medida e com os seus meios, para o bem comum. Talvez porque ainda há indivíduos que identificam empresário com patrão e ligam a este vocábulo uma carga negativa, a que certos comportamentos podem ter dado origem.

Sem deixar de reconhecer males que continuam a existir; sem deixar de reconhecer injustiças, como essa de empresas falirem e os «empresários» ficarem muito ricos; sem deixar de reconhecer casos de exploração da necessidade alheia, como acontece com «empresários» que se aproveitam da situação de imigrantes de Leste para lhes não remunerarem devidamente o trabalho; sem deixar de reconhecer casos como os de «empresários» que não têm os trabalhadores inscritos na Segurança Social ou não fazem os respectivos descontos, a verdade é que também no mundo do trabalho se tem avançado no sentido de uma maior justiça social. Uma coisa é não se ter ainda atingido o ideal e outra, negar a existência de passos em frente que realmente se têm dado.

Continuo a pensar que um empresário – um bom empresário – é muito benéfico para a comunidade. Criar postos de trabalho, criar boas condições de trabalho, criar empresas onde o trabalhador se sinta respeitado na sua dignidade e nos seus direitos é, hoje, uma forma de ser solidário e de amar o próximo. E há, de facto, bons empresários.

O empresário é um homem que procura o lucro. Não vejo nisso qualquer inconveniente desde que o faça através de processos legítimos e a riqueza produzida seja justamente distri-buída por quantos intervêm na sua produção.

Mas se hoje recordo António Champalimaud é sobretudo por causa do seu testamento.

Nele determinou que cerca de 24% da sua herança se destine a instituir uma Fundação para intervir na área da pesquisa científica no campo da Medicina. A dotação de capital da Fundação, a segunda maior Fundação portuguesa, deverá situar-se entre 400 milhões e 600 milhões de euros. Por vontade do falecido Empresário terá o nome dos seus pais, D. Ana de Sommer Champalimaud e Dr. Carlos Montez Champalimaud, e será presidida pela Dr.ª Leonor Beleza.

O testamento de António Champalimaud levou-me a pensar no dever que cada um tem de saber gerir o próprio dinheiro e quaisquer outros bens materiais que possua. No dever de o dinheiro e quaisquer outros bens materiais serem usados tendo em vista o bem comum.

Penso que as pessoas que têm bens devem ser aconselhadas a fazer um bom testamento. Um testamento onde se evitem conflitos entre herdeiros. Um testamento onde se inverta a tendência de a água correr para o rio, isto é, de contribuir para que os muito ricos fiquem cada vez mais ricos. Um testamento através do qual se procure fazer uma redistribuição da riqueza e se tenham em atenção os interesses da comunidade.

Com um testamento bem feito até depois da morte se pode continuar a fazer o bem.




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