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A propósito da auto-disciplina na Internet

Na primeira escola, a sala tinha cinco alunos e seis computadores

N/D
2 Jun 2004

1Longe vai o tempo em que a questão dos média na educação era um assunto “cool”. Era motivo de debates e conferências, de artigos científicos, de conversa animada, de grupos de reflexão. Hoje debater sobre Internet, os média e as TIC, já não é prioritário e muito menos “cool”.

Contudo, não deixo de verificar que na prática o assunto ainda baralha muita gente, e isto de não deixar as “criancinhas” (a elas e só a elas) ver muita televisão ou andarem na Internet para lhes proteger a educação e os costumes, é uma história mal contada.

É evidente que eu defendo uma educação para a responsabilidade e a existência de regras é fundamental para o ser humano perceber limites e horizontes e para isso é necessária auto-disciplina.

A auto-disciplina, se não se aprende em pequeno, dificilmente se aprende em grande. Tiro esta conclusão a olhar para o mundo dos adultos. Porque não aprendem, por exemplo, os nossos políticos, a falar um de cada vez e a aguardar pacientemente que os outros acabem as suas intervenções? Não parecem ser capazes de aprender qualquer auto-disciplina em adultos.

A auto-disciplina também não é uma coisa “cool” nos dias que correm… vivemos a exacerbação dos sentidos. O paradigma da exaltação dos sentidos tão bem conseguido no anúncio da Optimus “Faz o que sentes!!!” conduz-nos a que o impulso seja a grande mola dos nossos comportamentos.

2. Há dias, tive oportunidade de visitar duas escolas do distrito de Lisboa e assistir a uma aula de informática. Na primeira escola, a sala tinha cinco alunos e seis computadores, um dos quais desarranjado. Não parecia reinar grande disciplina. Os alunos, depois de entrarem aos empurrões na sala, interrompiam constantemente a professora, solicitavam ajuda de forma atabalhoada, implicavam uns com os outros.

Com apenas cinco alunos, a professora não conseguiu chegar ao fim da aula com o computador arranjado e nem todos acabaram o trabalho. Na escola seguinte, a sala de aula tinha 15 computadores e 30 alunos. Não havia papéis no chão, os alunos levantavam a mão para falar e aguardavam que o professor fosse ao lugar. A professora deu a aula sem stress, muitos alunos acabaram os trabalhos antes do tempo e puderam ir fazer outras coisas. A segunda escola é uma escola top-10. O que é que tem a ver disciplina com bons ambientes de aprendizagem?

3. O problema do uso da Internet, da televisão… de bombons… ou de qualquer outra coisa agradável não tem nada a ver com o meio em si, nem com o objecto, mas com a nossa liberdade! Até que ponto sou eu capaz de ter uma relação livre com eles? Até que ponto deixo que os meios me escravizem… e me levem a fazer o que não quero?

Bom… Mas, este não é apenas o drama da televisão, da Internet e dos bombons… Este é o desafio da vida toda. E sejamos claros: de forma nenhuma o uso inadequado de um meio é apenas um problema de “criancinhas”, é antes um problema de educação da liberdade de pais e de filhos. Aos pais dou um conselho: educar para a responsabilidade é dar liberdade nos horizontes, no processo e na descoberta, mas também é acompanhar, verificar e ensinar auto-disciplina.

Aproveitemos a oportunidade que é a Internet para passarmos mais tempo com os nossos filhos, para aprendermos juntos coisas novas e para nos descobrirmos e renovarmos a nós próprios e ao mundo. Internet? Sim!… Um olho no burro… outro no cigano.




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