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Bodas de Diamante Sacerdotais: setenta e cinco anos de fidelidade a Cristo

Como homem activo e prestável, não se “aposentou”, no sentido de que, por incapacidade, deixou de prestar o seu contributo sacerdotal, que é sempre dar-se aos outros, como Cristo

N/D
1 Jun 2004

Creio que todos os que, como eu, no velho ensino do liceu, se iniciaram na língua Latina, leram um texto de Cícero onde ele afirma, com convicção, de que nada há que valha tanto na vida como a amizade.
Ter um amigo é uma riqueza insondável, pois sabemos que à hora da adversidade, a nossa tristeza é sua tristeza e à hora do júbilo, a nossa alegria é por ele partilhada. E o que dizer da saudade lusitana na sua relação com a amizade? Li algures num poema, a este respeito, o seguinte: “É da saudade esta norma,/ algo assim que fez de nós/ dois amigos, de tal forma,/ que nunca se sentem sós”.

Mais do que tentar explicar a amizade, ela penetra a nossa vida duma forma entranhável e inesquecível. Por vezes, porém, com contornos imprevisíveis. A amizade agradece-se e já está!

Pois tenho um amigo, que vai completar 102 anos no próximo mês de Julho. Sacerdote como eu, celebrou há pouco as suas Bodas de Diamante sacerdotais. Exactamente, na Terça-Feira passada, dia 25 de Maio, já que se ordenou a 25 de Maio de 1929, na Sé de Viseu, diocese que serviu, no activo, até aos seus noventa e cinco anos, primeiro no Seminário, em seguida como pároco de Oliveira de Frades, onde permaneceu algumas mãos cheias de anos, e, depois, durante várias décadas, como reitor de Tondela.

Quando chegou à idade referida, o seu Bispo disse-lhe que já era tempo de descansar e recolheu ao Centro Socio-Pastoral da diocese, onde se mantém agora.

Contudo, como homem activo e prestável, não se “aposentou”, no sentido de que, por incapacidade, deixou de prestar o seu contributo sacerdotal, que é sempre dar-se aos outros, como Cristo nos ensinou. Pelo contrário: continua a ser uma extraordinária ajuda para os seus colegas que o reclamam para pregar, para confessar, ou para qualquer outro serviço pastoral.

Curiosamente, o saudoso Senhor D. António Monteiro, que o “reformou”, quando a doença implacável ia tornando mais difícil a sua concentração, encontrou por diversas vezes neste meu amigo, que sempre o rodeou com inteiro respeito e muito carinho, a ajuda preciosa para poder celebrar o Santo Sacrifício do Altar…

Deus tem destas amabilidades para connosco. Quem pode gabar-se neste mundo de conviver de perto com um colega com mais de um século de idade, que não parou ainda o seu trabalho “profissional”? Quem pode gabar-se neste mundo de ter a dita de celebrar, no dia exacto, as Bodas de Diamante sacerdotais, de um colega que prima pela lucidez, pela memória coesa, pelo bom senso e pela amabilidade da sua companhia? Pois se ele até está autorizado a conduzir sem óculos o seu Renault 5!…

Como homem prudente, corre o “boato” – se calhar verdadeiro – de que agora só se atreve a viajar de Viseu até Tondela e vice-versa. Foi caminho de quase meio século de vida!…

Não importa! Quanto a mim, e apesar do aumento substancial do nível de longevidade, não arrisco ou aposto com quem quer que seja: primeiro, a poder celebrar as minhas Bodas de Diamante de idade, já que as sacerdotais estão completamente fora do meu alcance; segundo, a garantir que, aos setenta e cinco anos, ainda seja capaz de conduzir um automóvel…

É por estas e por outras que alguém, numa reunião de sacerdotes comemorativa das suas Bodas de Diamante, considerando a perene juventude do Senhor Cónego José Tavares Baptista, assim se chama este meu amigo, dizia com certa emoção e maior razão: “Senhor Cónego, quando festejar os seus cem anos de sacerdócio, reze pela alma de todos os que estamos aqui consigo!”

Creio que interpreto o sentimento unânime dos meus pacientes leitores, se terminar estas linhas com votos de muitos e muitos anos de vida ao meu amigo, o Cónego José Tavares Baptista, nascido há cerca de cento e dois anos no concelho de S. Pedro do Sul e que, como informei, celebrou na passada Terça-Feira, dia 25 de Maio, com a simplicidade que o caracteriza, os seus setenta e cinco anos de sacerdócio. Parabéns e que Deus o ajude!




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