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Saibamos distinguir

O que repudiamos vivamente é a maneira como se juntam as pessoas e os factos por elas praticados à sua filiação partidária

N/D
31 Mai 2004

Os portugueses continuam a ser surpreendidos pela detenção de personalidades ligadas ao poder.

Um aqui, outros acolá, mostram-nos a face obscura e os meandros em que se movimentam certas pessoas. São o resultado de investigações tocadas por denúncias de várias origens. O iceberg vai mostrando a montanha em que assenta.

Muitas dessas denúncias são de pessoas despeitadas e, se formos verificar, nenhumas saíram da intenção pura de um acto de cidadania; foi sempre um ex-qualquer coisa que levado pela vingança e despeito, se fez de boa consciência e pôs a investigação a funcionar. Mas se isto não incomoda o delator muito menos incomoda o investigador. Escreve-se aqui direito por linhas tortas.

Desta vez mais um caso de suposta corrupção, apropriação ou desvio de dinheiros, vamos ver o que de verdade se apura, passou-se em Salvaterra de Magos. O que nos espanta não é o caso em si, uma vez que será mais um caso a juntar a outros que já existem ou venham a existir – o que repu-diamos vivamente é a maneira como se juntam as pessoas e os factos por elas praticados à sua filiação partidária. No caso concreto de Salvaterra de Magos, a notícia dizia à cabeça que as pessoas envolvidas eram do PS.

Noutras circunstâncias ter-se-á dito que eram do PSD ou do CDS/PP. E perguntamos: mas que tem a ver uma coisa com a outra? Por acaso neste país prevarica-se por ideologia política? É o partido A, B ou C que têm uma cultura para desvios de comportamento dos seus militantes e/ou simpatizantes? Alguém é menos honesto porque é deste ou daquele partido? O comportamento individual nas autarquias, ou em outros lugares públicos, está intrinsecamente ligado à filiação ou militância partidária? Claro que não.

As atitudes de cada cidadão são feitas de livre e espontânea vontade, não são condicionadas pelas estruturas partidárias, nem sequer encorajadas por elas. Cada indivíduo é um só em si mesmo e um todo nos seus actos e pressupostos éticos. É como diz Ortega y Gasset, «em ética, a vida converter-se-á na chave de uma descoberta valorativa chamada a orientar a conduta humana». Por isso não podemos concordar com as conotações que se fazem e muito menos com o aproveitamento que os políticos daí retiram. O homem por inteiro é um ser de convicções e não um aproveitador de ocasiões.

Se ele o não é por inteiro, então o homem é apenas um animal de instintos. Já o mesmo não digo quando os dinheiros de uma instituição são desviados para subsidiar campanhas eleitorais. Aqui o partido local, pelo menos este, por querermos acreditar que as estruturas nacionais não sejam coniventes, é responsável directo pelo comportamento dos envolvidos.

Ninguém é capaz de concordar que se retirem dinheiros dos bombeiros, das misericórdias, por exemplo, para custear as bandeiras, os aventais, as esferográficas e as jantavÜdas das campanhas eleitorais. Porque o homem é também, e ainda segundo O. G., «yo so yo mi circunstancia», é preciso que cada um, na sua dignidade individual, saiba que as circunstâncias são sempre de ordem ética e moral e nunca de livre arbítrio individual, quando este é levado ao extremo da sua aplicação.

Não concordamos, assim, com a conotação indivíduo/Partido político, dadas aos desvios comportamentais perpetrados pelo indivíduo/livre arbítrio. A nascente não é que polui o curso do rio; antes este se deixa corromper pelo poder.




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