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Vou votar

Se a memória não me atraiçoa, só uma vez não votei; e, mesmo assim, a falta, que não pude evitar, circunscreveu-se a um plenário da aldeia, onde éramos chamados a decidir entre duas listas com nomes de plantas e cuja diferença essencial estava nas datas propostas para «tapar a veiga» da minha geresiana e impagável aldeia…

N/D
30 Mai 2004

Esquecido esse momento, não há acto eleitoral em que não me apresente, cedo, perante a mesa eleitoral, sem fila de espera, tal e qual quando vou pagar o selo do carro.
Confesso que, algumas vezes, só uma grande força de vontade democrática me arrastou até à assembleia de voto, aonde cheguei protestando intimamente contra candidatos e programas, mais o grande deserto de ideias onde temos de encontrar quatro grãos de pensamento…

Com este passado heróico, no próximo dia 13, se Deus me der vida e saúde, lá estarei, consequentemente, uma vez mais, a lutar teimosamente contra a distância, a descrença, o tanto faz. E também contra o fastio de nomes e caras que conheço desde o tempo dos calções.

Gostaria, no entanto, de dizer aos rostos costumeiros dos cartazes e das Tvs e às vozes das rádios que já nem os vejo nem os oiço e que esta pode ser uma das derradeiras oportunidades para contarem comigo.

Bolas; é que eu não tenho apenas o dever de votar; também tenho o direito de esperar deles que pensem em mim e nos demais eleitores e se esfarrapem para serem cumpridores, coerentes, sérios e determinados.

Tenho o direito de esperar que não troquem o hemiciclo por uma passeata; que não esqueçam os dossiês pela comodidade de apenas carregar no botãozinho, erguer o braço ou o mesmo o corpo todo, de acordo com as consignas do partido; que não abdiquem da lucidez do debate, deixando-a toldar pela ironia, pelas frases construídas numa retorta de metáforas, ou pela pura e dura descortesia e mal-criadez.

Os mais recentes episódios parlamentares foram lamentáveis. Podem dizer-me que são exageros de quem se vê protegido pela imunidade; mas para mim revelam apenas a impunidade em que vivem.

Imagine o leitor que algum de nós escrevia, nesta coluna, sobre suas excelências, metade do que eles gritam no Parlamento. Tenha a certeza de que, em menos de um mês, uma carta nos chamaria para declarações. E, no mínimo, lá traríamos o papel do Termo de Identidade e Residência…

Ainda assim, acreditem: vou votar!…




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