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A Concordata e o Estado Português

Tudo isto são questões que a Igreja deve debater com o Estado, sem se deixar manipular ou pôr de joelhos, a partir de princípios gerais de uma sadia coexistência pacífica

N/D
28 Mai 2004

Esperada com ansiedade, a revisão da Concordata com a Santa Sé, a dar crédito a alguns jornais, parece que a grande questão era que os professores-padres de Religião e Moral nas escolas pagassem também impostos… De facto, não se entendia muito bem esta isenção quando os leigos, na mesma função, os tinham de pagar com língua de palmo. O mesmo se poderia dizer das casas de alojamento e restaurantes de certas Ordens religiosas…

Claro que, num país falido, o importante é que os cidadãos paguem impostos, por falta de clarividência, que levaria a incrementar e desenvolver mais a indústria e o comércio, menos o futebol, de modo a o Estado auferir novos rendimentos de qualidade e melhor produção.

Estamos num tempo onde o que interessa é tornar difícil a já difícil e dura vida de um português, por causa dos desvarios de outros. O mesmo se pode dizer de muitas rendas condicionadas, onde só se pretendeu salvaguardar o inquilino, penalizando sempre o proprietário, que, por vezes, nem chega a receber as miseráveis rendas…, mas tem de pagar os impostos…

Mas o assunto hoje é outro. Levantou-se a questão se os 650 euros que um pobre pároco de aldeia recebe, através do seu Conselho Económico ou Paroquial, deve ser também sujeito a tributação impositiva. Ora essa!… Um padre, formado nas escolas da Igreja (Seminários), que nada recebeu do Estado, a sobreviver, numa aldeia pobre, normalmente a viver dos pobres, que ainda dão da sua pobreza, o óbolo da sua generosidade, ter de pagar ainda impostos desse miserável salário, não cabe na cabeça de ninguém.

Quem estará de acordo? Só por solidariedade? Mas não precisaria ele da solidariedade de outros, que ganham muito mais tendo a mesma, ou formação superior? Por outro lado, se quem cobra os dinheiros é um Conselho Económico, criado pela Igreja, com que direito deverá contribuir para um Estado, que pouco ou nada faz, não precisa de escolas, nem professores para os seus filhos e terá de agravar o contributo dos seus fiéis para dar ao Estado-papão? Será que o Estado o vai depois distribuir pelos mais necessitados, ou subsidiar mais obras de assistência, escolas e os alunos das privadas e eclesiásticas, para compensar mesmo a administração e o papel de “engenheiros baratos”, que têm de fazer e suprir as deficiências do Estado em favor do Povo cristão e não cristão, mormente nas aldeias?

Tudo isto são questões que a Igreja deve debater com o Estado, sem se deixar manipular ou pôr de joelhos, a partir de princípios gerais de uma sadia coexistência pacífica.

Por outro lado, se, através da Concordata, se salvaguarda uma certa liberdade religiosa, poderá a Igreja equiparar-se a uma seita da última hora das Testemunhas de Jeová, ou do Reino e Menino Deus, recém-nascido, de fanáticos ou iluminados?

Realmente, somos todos muito originais… Além disso, uma Igreja pobre, abatida, com penúria de meios e vocações, poderá fazer face às suas funções, manietada, conservar monumentos em que alguns, como o Bloco de Esquerda, a trata como uma relíquia de Israel, sem qualquer respeito e acintosamente? Não terá direito de se defender a si e aos seus elementos no Tribunal Internacional?

A compreensão e perseguição tem limites, mas as instituições têm os seus direitos, como o comportamento e as maneiras têm a sua ética e deontologia.

Não se terá brincado demasiado com coisas sérias? Não terão sido os cristãos desse país coniventes e hipócritas, perante afirmações acintosas, de mau gosto, ofendendo a Igreja e muitos dos seus clérigos? É de lamentar que as cabeças pensantes desse país, na Concordata, não tenham privilegiado mais os seus elementos, preservando mesmo a defesa e afirmação de direitos, que, em nome da caridade e amor, não podem ofender a justiça…

Não terá direito a Igreja à sua própria imagem, estimulando mesmo um certo proselitismo e motivando os adolescentes para aderirem à carreira eclesiástica, quando há tanto desemprego e cursos a mais em certas profissões? Mas quem está interessado em defender um tal estatuto, evitando saltos no vazio, numa missão, sem fins económicos, mas que precisa de um mínimo garantido? Realmente, eu esperava mais de certos purpurados!…




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