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«Vieram adorar Nossa Senhora»

Por duas vezes seguidas, um jornalista da RTP 1 (não me recordo o nome), na sua reportagem em directo de Fátima, aquando da peregrinação de 13 de Maio, expressou-se desta maneira: «milhares e milhares de peregrinos vêm aqui adorar Nossa Senhora». Se isto fosse dito por um padre, dizíamos nós que estava a proferir uma heresia. Por um leigo-jornalista, nem tanto assim.

N/D
27 Mai 2004

Há dois anos passei, em tempo de férias, pela cidade de Bragança. Ali recolhi um cartaz que anunciava a festa da terra, onde pude ler: “A santa que todos adoram”. Na altura escrevi um artigo para a imprensa regional, que alguns periódicos publicaram, a contestar este modo de expressão.
No ano passado, no frontispício do Santuário de Fátima, estava escrito em palavras garrafais: “Só a Deus adorarás”, lembrando um dos mandamentos fundamentais da nossa fé.

Poderemos perguntar: como poderemos conciliar os modos da linguagem popular, as expressões dos jornalistas (em directo para o grande público e com grande impacto) com a linguagem correcta da fé cristã?

Estes factos questionam-nos e provocam em nós, não a indignação contra o povo ou contra os jornalistas, mas contra a pouca ou até má formação que ele e eles têm, a nível da religião, da cultura e da fé.

Já não é preciso repetir mais vezes que, culturalmente, estamos na cauda da Europa. Também sabemos que, a nível da cultura religiosa, o lugar da cauda ninguém no-lo tira. Mas já andamos a repetir isto há mais de trinta anos e também a ouvi-lo por essa Europa adentro. É caso para dizer que estamos perante uma “gangrena nacional”. Há dias o Presidente da República propôs que tivéssemos a educação como o grande desafio nacional e propunha a meta do ano 2010.

Aqui há muitos anos ouvi na UNESCO que até ao ano dois mil, o analfabetismo seria erradicado na maioria dos povos do mundo… Observemos e tiremos as conclusões.

Todo “me dano” quando, perante os números da nossa letracia (iliteracia), continuamos a fazer tantas obras de fachada, com bons granitos e mármores, grandes estádios para “futebol ver” e até magníficas catedrais para todos rezarem. E passo na rua, em frente e à noite, e os cheiros são nauseabundos, porque a terra continua a não ter saneamento básico, a saúde básica não funciona, a desistência escolar dispara em alta, por falta de motivações e perspectivas culturais e profissionais na juventude.

Aquela frase do tal jornalista em directo ficou-me cá a bailar; e já mais que uma vez provocou em mim a perplexidade da ignorância religiosa e também a pergunta: o que é que a Igreja está a fazer para estripar esta gangrena nacional?

Não sei se no ano de 2010 estaremos aqui, para continuar a fazer a mesma pergunta!




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