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Os novos desafios universitários

Iremos criar faculdades de engenharia para construir estádios e desafiar a Europa? Será assim que nos vamos impor?…

N/D
26 Mai 2004

Não é nada abonatória da qualidade das nossas universidades o ranking ou ordenação feita por Jiao Tong, de Xangai, às 500 universidades mundiais, colocando apenas uma portuguesa – a de Lisboa – num 381.° modesto lugar. Embora possamos discutir os parâmetros em que foi elaborada, para um país, que foi aquele que mais investiu na cultura na UE após a Revolução de Abril, é muito pouco.
Tanto mais grave ainda que, sendo a maior parte dos alunos licenciados, saídos das Faculdades de Letras – hoje dos menos absorvidos pelo mercado de trabalho -, poder-se-á perguntar se teria sido justo esbanjar o erário público a especializar candidatos para o desemprego, ou se tudo foi feito apenas para garantir os postos de trabalho de certos professores universitários…

Há muito que as universidades europeias vêm racionalizando cursos de Letras e têm sido elaboradas listas de prioridade dos cursos necessários no futuro. Hoje, fala-se mais na formação de elites e de cursos, que aperfeiçoem e potencializem a massa cinzenta existente, promovendo mais a investigação e as ciências.

Há dias, na tomada de posse do novo Reitor da Universidade de Bona, Matthias Winiger, com um texto de juramento de defesa da Alma Mater, em latim (quem entre os nossos académicos o entenderia?…), serviu de reflexão para os novos desafios, qualidade, ambições e futuro das universidades europeias e alemãs. Foi um discurso-programa, onde a palavra de ordem é a formação de elites humanísticas, da ciência, novas tecnologias, bio-gen técnicas, médicas, de modo a impor ainda mais a sua qualidade da Europa, frente às universidades americanas e japonesas, apesar de não terem as de elites, como Harvard, Yale ou Oxford.

Sem dúvida, um programa de alto gabarito, em que não se silenciou nada, mesmo desafiando o governo socialista, o que mais denegriu as universidades alemãs, quando aparecem superiores a algumas de formação de elites americanas.

De salientar que a Universidade de Bona já teve dois prémios Nobel em Medicina, Física, Matemática. A sua faculdade de Direito e Ciências Políticas é considerada a melhor da Alemanha, capital de que beneficiou por ter sido antiga capital. Tem cerca de 35 mil alunos – neste semestre com menos 8.000 alunos -, obrigados a desistir por arrastamento, insucesso e acréscimo de propinas (650 euros/semestre). Tem uma quota de 400, para alunos internacionais, que alargou para 600, com vistas a receber mais, através dos Programas Erasmus, Leonardo, Caesar, americanos, etc. – além de projectos especiais no ramo da medicina.

Mais que nunca se defende que a grande aposta para o desenvolvimento europeu está na qualidade, investigação e ajuda inter-comunitária, partilhando experiências comuns, desenvolvendo mais projectos e permitindo o intercâmbio de professores e alunos, beneficiando mutuamente de estudos conjuntos, para um mundo cada vez mais globalizado.

Para isso exigem-se línguas internacionais, que não apenas o inglês, e que os alunos aproveitem as possibilidades oferecidas, sobretudo de países menos desenvolvidos e com mais dificuldades na União Europeia.

Não tenho visto os universitários portugueses a aproveitarem das possibilidades abertas. Alguns dos que chegam, nem perfazendo as quotas, não têm sido seleccionados convenientemente: são filhos de emigrantes, com conhecimentos já da língua, nem sempre os melhores e que mais precisariam…

Por isso penso que não se estão a atingir os objectivos da Declaração de Bolonha nem das directrizes comunitárias. Como sempre, preferimos ser adiados, ou viver com tácticas de avestruz, cegos, num isolacionismo, pensando até que somos os melhores, numa auto-suficiência que nos autoflagela e aniquila no contexto intelectual, social, económico, mundial e europeu.

Já é tempo de estarmos mais atentos. O mesmo se dizendo das universidades católicas e outras privadas, de modo a preparar-nos para um futuro muito difícil de concorrência, onde só os melhores, mais fortes e melhor preparados terão alguma coisa a dizer. Ou iremos criar faculdades de engenharia para construir estádios e desafiar a Europa? Será assim que nos vamos impor?… Tenho mesmo receio que nem ganhemos o campeonato!…




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