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Do fingimento ao cinismo

Não vejo hoje, na rua ou nos ajuntamentos, caras risonhas de fantasiosas promessas de amor, antes caras fechadas, maceradas não sei porque incertezas, e pior, rostos que parecem já ter experimentado as amarguras duma vida de desilusões. Mataram o amor?

N/D
24 Mai 2004

O cinismo é a água quente deitada na raiz dos sentimentos. E em vez de adubo que faz crescer é o veneno que mata ou mingua. Ao ver rir uma jovem, ou um moço da mesma idade, de coisas que falam de beleza dos sentimentos, como o amor, fica-nos o engulho na alma e mal compreendo os tempos em que vivo; do fundo do meu sentir, sai o lamento pela poesia que se perde.
Não sei que sentimentos experimentam os novos, nos novos tempos, que outros inventaram para substituir o perfume da vida, talvez nenhum, talvez o descaramento, mas sei que os de agora não têm o encanto do canto, nem a métrica do enlevo da alma. É tudo tão frio e tudo tão racional que a mim me parece estar a contemplar umas terras secas, gretadas por falta de água!

Em vez duma ramagem frondosa, uma árvore mirrada, onde os passarinhos não fazem ninhos, nem gostam de cantar. Não vejo hoje, na rua ou nos ajuntamentos, caras risonhas de fantasiosas promessas de amor, antes caras fechadas, maceradas não sei porque incertezas, e pior, rostos que parecem já ter experimentado as amarguras duma vida de desilusões. Mataram o amor? Certamente e, por isso, no cemitério dos enlevos mortos, colocaram uma lápide de sarcasmos e ironias corrosivas. assim, com esta juventude mergulhada no riso do escárnio não vamos lá porque “o mundo não pula, nem avança como bola colorida, fora das mãos duma criança”, parafraseando Gedeão.

E tudo começa nas crianças que deveriam ter tempos livres para ser crianças, e acabam por ter tempos ocupados por milhentos afazeres! Feliz foram aqueles que puderam soltar o papagaio, atirar à fisga, ou deitar o pião, sem lhes ocuparem o tempo, com tempos livres!

Os tempos livres eram inteiramente deles, gastos a correr em brincadeiras sem fim e onde, ao invés de hoje, os risos e gargalhadas faziam eco nas quebradas dos montes e vales. Foram felizes e foram escritores, cientistas e inventores. Agora chora-se tanto desde a nascença… é para ir ao infantário, para a ama, para a pré-escola!

A alegria está emparedada, não respira saúde, vive de relógio na mão; são horas de ir, são horas de dormir, são horas de regressar e tudo, sem a calma de tudo, numa embrulhada de gestos e desespero, de gritos e indignação pelo trânsito que se não escoa, pela pressa de largar para as horas do emprego… no febril da pressa, a que chamam de doença, se foi construindo a geração cínica que temos. É cínica porque sempre teve afectos a fingir: de pais que estão sempre ausentes, (compensam-nos com prendas caras) dos infantários que os igualam, eles que tanto precisam de ser apenas eles, nos horários a que se sujeitam. E, já quando maiorzinhos, lá vão eles, mochila às costas, carregados como tartarugas, vergados ao peso de uma livraria prolixa que, está provado, é cada vez mais fardo do que estudo.

Depois, bem, depois toda a evolução seguinte se passa a fingir, em palcos de escola, discotecas, cafés, onde a vida juvenil ou adolescente assume aspectos de representação social. E na base, no fundo de cada um destes actores sociais, existe um medo terrível: que descubram que têm uma alma sensível capaz de amar como amaram os pais ou os avós; para que não veja ou cuide alguém que têm alma; é assim o grupo, e ele quer pertencer-lhe. Por isso finge. Para fingir é preciso ser-se cínico. E de tanto parecê-lo acabarão por sê-lo.




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