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No sexto aniversário da morte de Lucas Pires

Era tribuno de verbo fácil e ideias claras, o que não é muito comum entre os políticos. Carismático, além do mais, pela riqueza das suas metáforas

N/D
21 Mai 2004

É tal o vazio deixado por certas pessoas que partem para a vida eterna que chega a pôr-se em dúvida esse grande atributo de Deus: a justiça. Quando confrontados com a partida precoce de pessoas que passaram a vida a praticar o bem, e de quem tanto havia ainda a esperar a favor da humanidade, a nossa fé esmorece e as dúvidas sobre a justiça divina ganham outra dimensão.

Aumentam!

A isto pode chamar-se heresia. Mas na hora de desespero, somos arrastados a pôr em causa os dogmas da fé católica.

Porque é que, em vez dos bons que deviam só cumprir a fatalidade da morte o mais tarde possível, não morrem mais cedo – o melhor seria nem terem nascido – todos aqueles que passam egoisticamente a usar o poder, conquistado tantas vezes pela violência e mantido com autoritarismo, ao serviço de interesses próprios, ilegítimos, à custa da fome, da guerra e da morte de tantos inocentes?

Mas recompostos, temos de concluir que nascemos limitados, que há certas verdades que a nossa inteligência não pode compreender; que a omnisciência é um atributo exclusivo de Deus.

Talvez tenha havido uma razão forte no encurtamento do tempo possível da vida daqueles que partem quando tanto havia ainda a esperar de si. Quem sabe se foram chamados a desempenhar uma nova missão, como prémio do bem que fizeram na terra! Sei lá. Não sei. Não sabemos. Ninguém sabe. São dúvidas que hão-de desaparecer, para quem tem fé, quando do outro lado da vida.

Partiu abruptamente, sem poder despedir-se de ninguém, preocupado apenas em chegar a tempo de participar como arguente num doutoramento, na sua querida Universidade de Coimbra! Ainda teve tempo de dizer que tinha pressa porque estava atrasado. São assim os homens grandes que passam a vida a correr por causa dos outros.

Já com a mão no peito, a sentir a arritmia do coração cansado, não pediu para que o levasse depressa ao Hospital mais próximo, onde acabou por chegar, mas já sem vida! Era à Universidade que queria chegar primeiro! Mas acabou, infelizmente, por ficar pelo caminho.

Era um homem da direita e dos Direitos, sobretudo na área de Direito Constitucional. A ele se deve o arrojado projecto de Constituição Política, elaborado a pedido de Freitas do Amaral, que veio a ser publicado em livro e seguido muito de perto na Assembleia Constituinte.

Mas era também um homem da cultura. O discurso de apresentação do programa do Ministério da Cultura, de que fora titular, no governo de Pinto Balsemão, mereceu o aplauso entusiástico de todas as bancadas parlamentares. O Expresso da semana seguinte chega a referir que um deputado de esquerda chegou a ser repreendido pelo seu partido, dado o calor com que de pé o aplaudira!

Era tribuno de verbo fácil e ideias claras, o que não é muito comum entre os políticos. Carismático, além do mais, pela riqueza das suas metáforas.

Na adolescência foi, por vezes, considerado demasiado à direita. Mas com o mérito, e quem o afirma é o seu amigo e condiscípulo Vital Moreira, de ser o único que nas apaixonantes assembleias magnas da Academia, se assumia como tal com os seus fluentes e estrondosos discursos, a fazer lembrar já um futuro MRPP da direita.

Mas em 1971 vai para a Alemanha estudar e vem de lá inteirado de que a vida política não se esgotava nos extremos. Para além das ideologias dos sistemas comunistas, em vigor, sobretudo nos países de Leste e dos sistemas não menos autoritários da direita, um pouco por todo o lado, havia ainda um amplo leque de opções para quem quisesse lutar por uma sociedade livre e mais justa.

Abraça assim a democracia cristã que tão bons resultados estava a dar na Europa, sobretudo em Itália onde o governo foi, por muitos anos, um governo estável, embora de coligação formada pelos partidos de democracia cristã e comunista!

Mas foi um engano de consequências irreparáveis ter sido seduzido pelo programa do CDS de Freitas do Amaral e Amaro da Costa.

Só tarde demais veio a compreender que a democracia cristã estava apenas no programa do partido e na cabeça dos seus fundadores. Nunca na maioria dos militantes de base e muito menos na base de apoio dos seus eleitores.

Ilegalizados todos os partidos à sua direita, o CDS tornou-se o refúgio de saudosistas, tantos dos quais despojados de privilégios e apeados dos lugares ao serviço do regime deposto. Não tinham mais para onde ir e para ali entraram e por ali foram ficando, à falta de um partido mais à direita.

E foi pena que muitos militantes bem intencionados e que nada deviam ao moribundo sistema derrubado no 25 de Abril se deixassem seduzir por uma falsa democracia cristã.

Mais tarde, Freitas de Amaral virá a queixar-se que a culpa não foi dos dirigentes, mas dos militares vermelhos que ilegalizaram os partidos de ideologia extremista encapotada. Felizmente hoje, a militância é outra, mas com a bipolarização que se vai afirmando, será sempre um partido de contrapeso. Quem torto nasce, torto acaba. Continuará o PP/CDS ou o CDS/PP, ou qualquer coisa parecida, a ser um sorvedouro de vítimas, a começar pelos próprios líderes?

Se antes de se ter decidido pelo CDS tem optado pelo PPD de Sá Carneiro, teria certamente sido ele, a seguir ao desastre de Camarate, a tomar nas suas próprias mãos os destinos do Partido Popular Democrático e teria sido ele também a conquistar a primeira maioria como Primeiro-ministro indigitado. Ali, teria mais espaço para crescer.

É que a sua inteligência, a sua capacidade de trabalho, a sua vasta cultura, os seus dons oratórios, eram atributos que tocavam, por vezes, a genialidade.

Só que sendo corredor de fundo da Fórmula 1, Lucas Pires andou sempre ao volante de um Citroën dois cavalos.

E foi pena. Para ele e para o país que ficou privado de uma estrela de primeira grandeza no universo da política, da cultura e da academia.

PS – Texto escrito a 29/05/98, data da missa do sétimo dia da sua morte a 22 do mesmo mês.




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