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Uma “visitação” a Abril (1)

O Povo não foi chamado a referendar porventura as duas maiores questões que lheinteressavam: a descolonização e a integração na CEE

N/D
19 Mai 2004

A – O actual regime já tem 30 anos

O tempo passou a correr e a terceira República Portuguesa acaba de entrar na sua quarta década de existência. Um dos principais trunfos do actual regime, a sua novidade, a sua juventude, a sua “superioridade cronológica” em relação ao que lhe ficou para trás, começa pois aceleradamente e esbater-se. Se dúvidas houvesse, observe-se o desgaste físico, nalguns casos a decrepitude mesmo, que atinge já boa parte dos “capitães de Abril”, os que ainda estão vivos.

Aliás, muitos dos intervenientes naquela data histórica já não são deste mundo: Marcelo, Tomás, Sá Carneiro, Mota Pinto, Pinheiro de Azevedo, general Freire, Spínola, Costa Gomes, Samora Machel, Melo Antunes, Agostinho Neto, Savimbi…

O 25 de Abril de 74 foi um golpe militar seguido de uma Revolução, a qual passou por várias fases. A primeira destas tinha tendência comunista e quase levou o país a uma odiosíssima guerra civil. A “contra-revolução” só retomou a custo o controlo da situação política, a partir da corajosa acção do general Ramalho Eanes e do coronel Jaime Neves, no 25 de Novembro de 1975. Ao máximo dos primeiros anos seguiu-se uma fase mais ou menos social-democrata e socialista nos anos 80. Os últimos anos do cavaquismo, já nos anos 90, acentuaram uma perigosa tendência para o liberalismo selvagem e para o internacionalismo, que os seis anos de governo Guterres mal contrariaram. O barrosismo (que depôs o guterrismo) está presentemente a retomar o cavaquismo da última fase e a levá-lo a limites inimagináveis. A componente conservadora, democrata-cristã, “nacionalista envergonhada” do Partido Popular no actual governo, mal se tem feito sentir.
A primeira República durou 16 anos, a segunda durou 48. A terceira já fez 30. Os seus apoiantes dirão que isso não é nada. Que o “rock” já dura há 60 anos e é a única música de que os jovens gostam. Ninguém o negará, mas…

B – Comparando o Salazarismo com o actual Regime Democrático
É certo que a comparação deste tipo, por mais histórica, despolitizada e tentativamente científica que seja, nunca colherá o aplauso de muitos daqueles que nessa comparação possam sair a perder. Para mais, em Portugal nunca se esbateu totalmente aquela divisão ideológica, clubística quase, que costuma pautar os modos de ver daqueles (não tão poucos como isso) que se sentem descendentes de cristãos-
-novos; e daqueles que se sentem cristãos-velhos. Os primeiros, mais inclinados para o Liberalismo, e os segundos, mais simpatizantes da ideia da Autoridade. Mas passemos então à comparação, sector a sector, entre o Portugal do Corporativismo e o da Democracia nascida em Abril.

1. Desenvolvimento

O Portugal de hoje é obviamente um país muito mais desenvolvido do que era em 1974. Porém, esse desenvolvimento pouco teve a ver com a Política e muito mais com o decorrer do tempo e com a evolução técnica e científica internacional. Passaram-se 30 anos, não apenas 30 meses… Note-se a propósito que a taxa de crescimento da Economia portuguesa no decénio 1960-70 já era a terceira maior da Europa, com 5,2 por cento ao ano. Por outro lado, o desenvolvimento dos anos 90 tem-se feito frequentemente à custa do património natural e de forma socialmente desequilibrada.

2. Democratização

Sem dúvida que aqui o actual Regime marca pontos em relação ao anterior. Os cidadãos são chamados com maior frequência a pronunciar-se sobre mais assuntos. Porém, o seu voto tem sido canalizado através apenas de três ou quatro grandes correntes de pensamento (comunismo, socialismo, conservadorismo, liberalismo) com exclusão de outras maneiras de ver o Mundo e a História. Por outro lado, o Povo não foi chamado a referendar porventura as duas maiores questões que lhe interessavam: a descolonização e a integração na CEE.

3. Império e descolonização

Desde a conquista de Ceuta, em 1415, que Portugal era uma nação europeia que comandava um Império transcontinental. Numa primeira fase foram as feitorias da África, Índia e Extremo Oriente.

Numa segunda fase, o Brasil, até 1822-24. Desde então, foram principalmente as vastas e ricas colónias africanas de Angola e Moçambique (além da Guiné, Cabo Verde, São Tomé, Goa, Damão, Diu, Timor e Macau). Foi a nossa tropa, que à custa de tanto esforço, heroicidade e sangue (próprio e alheio…) conquistou e defendeu, pelos séculos fora, todas estas possessões, aliás internacionalmente reconhecidas.

Veio contudo aquela geração de militares do titubeante marcelismo. O seu inimigo não era qualquer poderoso e invejoso rival europeu ou norte-americano. Eram colunas de indígenas, não muito numerosas e com armamento inferior. A guerra só não corria bem na Guiné, por força da relativa pequenez do território e das suas densas florestas.

A abdicação colonial só ocorreu porque na Metrópole a propaganda liberal e internacionalista, numa verdadeira traição aos interesses seculares da Pátria, aproveitou o caos causado pelo golpe dado pelos “militares que não o queriam ser”; e iludiu um povo inculto, que esqueceu que só em Angola e Moçambique viviam 800.000 portugueses.

Neste capítulo das colónias, Abril perde largamente para o Salazarismo, até porque, a haver descolonização, podia seguir-se o que havia sido feito em 1822 no Brasil (os portugueses ficaram lá todos e continuaram a emigrar para lá). Não esquecer ainda que Angola e Moçambique, em 1974, tinham como vizinhos uma África do Sul e Namíbia comandadas por 4,5 milhões de boeres e ingleses; uma Rodésia-Zimbábue britânica; e um Malaui, Sauzilândia e Lesoto negros, mas amigos.

(Continua amanhã)




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