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Os «sem voz»

O pior é que, paralelamente, aos «sem voz», aos «sem ouvidos» e aos «sem olhos», também existem os «sem alfabeto»

N/D
18 Mai 2004

No meio de tantos «dias mundiais», comemorou-se em 16 de Abril o Dia Mundial da Voz.
Porque já são demasiados os Dias Mundiais a comemorar, estas celebrações banalizaram-se e o facto quase passou despercebido do grande público.

Foi pena, porque esta efeméride, no meu entender, é importante pela positiva e, até, pela negativa.
Pela positiva, porque realça uma preciosa faculdade da pessoa humana que utilizada, sem deficiências nem exageros, e útil e indispensável no decurso da vida.

Com a voz se imortalizaram cantores na área musical, poetas no âmbito da poesia, tribunos na zona da política e pregadores no espaço da oratória.

Pela negativa, porque nos chama a atenção para as dificuldades daqueles que nasceram com deficiências no aparelho fonador, isto é, dos mudos e, sobretudo, para os chamados «sem voz», ou seja, para aqueles que não têm espaço nem ocasião para formular as suas queixas e exprimir as suas amarguras.

Seriam estes, no meu entender, que mereciam prioridade na consagração dum Dia Mundial, em que pudessem exprimir os seus pontos de vista, com garantia de recepção oficial.

É que se é triste não ter fala, também não é agradável tê-la e não a poder usar.

O 25 de Abril deu «voz de rua» a muita gente, mas, tanto na verdura minhota como na rusticidade transmontana, ainda há, sem «voz de rua» nem «sombra de azinheira», muito esquecido lavrador a esgravatar todos os dias o bíblico alimento do suor do rosto, apenas com o rócio da madrugada e o torresmo do meio-dia.

A voz (som) é um instrumento importante da conversação, pois a comunicação oral, para além do som emitido, exige ainda recepção acústica.

Mas como há os «sem voz», também existem os «sem ouvidos», seja porque os tapam, seja porque a voz, por diversos motivos, não chega até eles.

Realmente, todos os dias se notam pessoas que só escutam o que lhes convém e também ninguém ignora que, embora haja «vozes que não chegam ao céu», outras há que deviam ser ouvidas, em toda a terra.

A comunicação é essencial na vida social do homem. Daí, o uso da fala se tornar quase imprescindível.

É certo que, para a ajudar ou, até, para a substituir, existe ainda a comunicação escrita.

O pior é que, paralelamente, aos «sem voz», aos «sem ouvidos» e aos «sem olhos», também existem os «sem alfabeto».

Mas, como a natureza é rica e está atenta a todas as deficiências humanas, a estes ainda resta a utilização da comunicação gestual que, embora menos eficiente, também é meio de comunicação.
A voz é um instrumento multifacetado do diálogo entre as pessoas.

Assim, porque a voz traduz o pensamento, o homem fala; porque é escutada, o homem dialoga; porque é som, o homem canta; porque tem ritmo, o homem declama, porque exprime sentimentos, o homem tanto grita como cicia; porque obedece à vontade, o homem tanto afirma como nega.
Como é prestigiosa a voz humana!…




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