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Vamos distinguir as águas

Não me parece que, nesta eleição, estejam em causa as opções nacionais

N/D
17 Mai 2004

Começou a campanha para as europeias. E, no meu entender, começou muito mal, tanto por parte dos partidos da contestação como pelo partido da oposição. Querem que o eleitorado português mostre um cartão amarelo ou vermelho à actual coligação que nos governa.
E ficamos perplexos porque por momentos ficamos sem saber se é um Parlamento Europeu que vamos eleger, ou se é um Parlamento Português que vamos votar para escolher nas próximas eleições de Junho.

Na verdade, a quem os eleitores devem mostrar os tais cartões futebolísticos é ao Parlamento Europeu; é esse quem deve ou não deve ser sancionado e não o nosso governo que, para o caso, nem é tido nem achado. O que o nosso governo está, em parte, é condicionado com o que se determina em Bruxelas. Mas existem áreas de governação que nada têm a ver com Bruxelas: economia, saúde, educação, finanças, segurança, etc., etc.

A dependência ainda não é tanta que ameace a nossa soberania de Estado, nem tão-pouca que não mereça, em eleições legislativas nacionais, ser avaliada. Por isso, nas próximas eleições, se há puxões de orelhas a dar não é ao governo português ou alemão, por exemplo, é única e simplesmente ao governo da Comunidade.

Assim, não percebemos a ligação próxima que os partidos da contestação e o da oposição fazem entre o governo nacional e o governo da Comunidade. Todos os eleitores sabem que os partidos da contestação querem aproveitar-se da ocasião para badalar. E o da oposição para marcar posição e pontos positivos. E compreendemos todos que para quem contesta, ou se opõe, todas as ocasiões são poucas e, por isso, todas as situações devem ser aproveitadas.

Mas isso é uma situação que se aceita e outra absolutamente diferente é tentar deitar na caldeirada peixes que não são da caldeirada. Isto não é propriamente uma salada de frutas… Mas, dir-me-ão: as eleições de cada país influenciam a constituição do Parlamento Europeu e, assim, duma forma indirecta, os votos nacionais acabam por influenciar as decisões europeias. É verdade, só que a possibilidade é mais teórica do que real, como se tem verificado.

As nossas vozes cantam pouco naquele orfeão. Vamos todos às urnas nas próximas eleições europeias, mas vamos mais por convicção democrática do que por utilidade de governação europeia. Estarei sempre de acordo que haja um Parlamento Europeu, assim como uma Constituição Europeia – já agora com referência católica. De igual modo somos a favor duma força militar única, mas estarei sempre contra a tentativa de misturar as situações através de aproveitamentos conjunturais.

Como estarei contra uma educação única, uma cultura única, uma arquitectura única, etc., etc. Os partidos da contestação, PCP e BE, e mais o partido da oposição, PS, terão ocasiões de sobra nas eleições legislativas (nas presidenciais também não há governo a eleger), para fazer valer os seus argumentos e impor os seus programas à consideração dos eleitores portugueses.

Não me parece que, nesta eleição, estejam em causa as opções nacionais. E porque todos os partidos reconhecem este distanciamento – interesse nacional e interesse comunitário – é que temem a abstenção. Na verdade, não querendo perfilhar as ideias de Saramago a favor da validade da abstenção, não deixa de ser uma violência ir escolher uns senhores deputados europeus de que se desconhece o desempenho.

É cheque em branco. Vamos votar o quê e em quem? Fazendo a cruz de olhos fechados, como quem se esconde da sua consciência? Votar no escuro é penoso e desvirtua o princípio da opção consciente.




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