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Imprensa livre?

Se todos temos uma cabeça para pensar, uma boca ou pena para dizer, não é menos verdade termos todos duas orelhas para ouvir…

N/D
14 Mai 2004

Celebrou-se há dias (3 de Maio) o “dia mundial da imprensa livre”. Confesso que ignorava completamente uma tal comemoração solene. Valeu-me ter escutado na rádio, na manhã desse dia.

Foi o bastante para, num impulso quase espontâneo, ter tomado a resolução de escrever umas linhas acerca do tema.

Aqui estou, disposto a pôr em comum as minhas ideias a tal respeito. Sei bem que nem todos, na prática, aceitarão o meu ponto de vista. Nem tal me importa, dado que “cada cabeça sua sentença”…

Talvez seja por causa dos discordantes que a “liberdade de imprensa” mereceu um “dia mundial” a comemorá-la.

Eu sei que (e não apenas no antigo regime) a “liberdade de imprensa” ainda não é realidade incontestável. Os jornais, embora se proclamem independentes e abertos à pluralidade ideológica, continuam a ter nos seus dirigentes padrões que defendem, padrões que toleram e padrões que rejeitam…

Falo com conhecimento de causa. Tenho enviado trabalhos meus que, sem ofenderem ninguém nem faltarem à deontologia, mas defendendo apenas os meus pontos de vista e julgo que com todo o direito, uns têm sido sonegados, outros publicados com adulterações, e alguns até com omissões graves, tanto mais quando o fazem sem me dar satisfação alguma…

Ora isto vai directamente contra a apregoada “imprensa livre”.

Acusava-se o antigo regime de amordaçar a impressa. Era verdade. Passava só aquilo que o crivo coador deixava passar… Fez-se a revolução e vai de apregoar-se aos quatro ventos que agora cada um é livre de pensar e falar, sem receios de opositores que abafem… Desde que sujeitando-se às consequências do que disser e for ofensivo e injusto, cada pessoa poderia dizer o que pensa, concordando ou discordando…

Que maravilha, se assim fosse! Não; ainda hoje há pessoas que só não impedem de falar se o não conseguirem fazer… Ainda há muita gente a gostar das ideias e palavras concordantes, mas a sentir alergias quando ouvem ou lêem discursos diferentes dos seus…

Lá que se não goste, compreende-se. Custa ouvir certas verdades, mesmo ou sobretudo quando elas são libertadoras… Daí, porém, a tentar impedir que os outros digam o que pensam, falando ou escrevendo, aí – julgo eu – deve haver “Abril a menos”…

Festejemos, pois, ao menos uma vez por ano, o “dia mundial da imprensa livre”. Se todos temos uma cabeça para pensar, uma boca ou pena para dizer, não é menos verdade termos todos duas orelhas para ouvir…




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