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Chover no molhado (35)

Sou “Eixo do Mal”. E tanto mais, quanto mais me sirvo de Deus como justificação da minha atitude

N/D
14 Mai 2004

Uma das coisas de que o homem, francamente, se orgulha ou se pode orgulhar, é o de ser “Pessoa”.

Mas “Pessoa” não apenas no sentido de ser só sujeito livre e inteligente, mas, sim, tudo o que com isto se conota. Eu, por exemplo, como Pessoa, ou tu, ou qualquer outro, sou ou procuro ser, um sujeito integral. E, como ser integral, a minha função é a de estabelecer relações progressivamente ajustadas com a envolvente realidade total. Portanto, da parte da pessoa, exige-se a vivência da sua integridade. E da parte da realidade exige-se a integridade da sua totalidade.

Por integridade entendo, em mim, a unidade das diferenças. As diferenças, em si, conservam a sua peculiar independência. Mas a sua origem está no “Ser” que é “Uno”. E o “Uno” é a fonte da vida, do dinamismo e do amor.

Portanto, a Pessoa tem de ser amor; tem de ser vida; tem de ser dinamismo. Portanto, a Pessoa tem, necessariamente, de ser vida dinamicamente amorável nas suas relações com a realidade. Tem de ser empática.

Por totalidade entendo essa teia de relações de abertura e de aceitação entre toda a realidade: eu com o outro, com a natureza e com Deus.

Destroçada, em qualquer aspecto que seja, a minha integridade, ou ferido, em qualquer aspecto que seja, o meu relacionamento de abertura e de aceitação com a realidade total, eu já não sei o que, propriamente, sou. Só sei que, enquanto permanecer em mim este estado, sou “Eixo do Mal”.

Suponhamos até que o meu espírito abraça calorosamente o Divino. Contudo, o meu espírito está longe da minha carne. O meu espírito, desdenhosamente, abandona, rejeita, maltrata e humilha a minha carne. Eu já não sou “integral”. Eu já não sou amor. E não sou amor porque o amor nada rejeita. Sou então “Eixo do Mal”. E tanto mais, quanto mais me sirvo de Deus como justificação da minha atitude. Olha, e se este abraço, além de ter quebrado em mim a minha integridade, exclui o outro ou até a própria natureza, da realidade total? Paradoxalmente, eu rejeito; eu condeno; eu torturo. Eu sou, então, “Eixo do Mal”.

Agora vou partir daqui; vou partir de mim, Pessoa, como realidade integral. Suponhamos. Mas eu, como realidade integral, expulso Deus da minha realidade total. Quem o passa a substituir, pergunto eu? Onde assenta, relativamente ao outro, o meu humanismo? Na minha intransigência. No meu servilismo. Na minha camuflada mentira. Na sua condenação. Na sua tortura… Eis, novamente aqui, o “Eixo do Mal”.

Quero rascunhar agora, aqui, não os nobres políticos, mas os que, pelo mundo fora, se servem da política para atingir os seus objectivos, objectivando o outro ou o grupo. Eis, novamente, o “Eixo do Mal”.

Mas parece que este “eixo” já está podre e um outro começa a cintilar no céu da nossa civilização: o movimento integral, sistemático, holístico. Eis aqui o prometedor “Eixo do Bem”.




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