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Média – riqueza e risco

Todos precisamos aprender, todos os dias, e ninguém deve fugir ao reconhecimento dos próprios erros

N/D
13 Mai 2004

O caso Casa Pia – nosso inacabado folhetim – trouxe ao de cima uma infindável lista de questões sobre a sociedade, a família, a moral, a privacidade, as crianças… e a comunicação social. A primeira abordagem sobre estes e outros flancos desta complexa questão é a de primária condenação da sociedade hodierna como mãe de todos os vícios. E, todavia, grande parte das questões que se levantam não são de hoje.
Muitas depravações e patologias vêm narradas na Bíblia e, sabemos, fazem parte dos desmandos da humanidade. Quem conhece por dentro o ser humano sabe que, aberrações desta ordem, em maior ou menor grau, sempre aconteceram ao longo da história. O ser humano é portador do bem e do mal.

Em rigor, nada de novo aconteceu. Apenas tudo se narrou de nova forma, dentro do mercado mediático, como se o tribunal fosse uma praça pública de rápida sentença. Foram os média que ampliaram essa rotura. Ela existia e existe à boca pequena, no mais impiedoso desrespeito para com quem prevarica. Mas tudo se altera ao passar para o discurso envernizado da imagem pública que, com uma surpreendente conivência do tecido social vai (ia) calando o escândalo, escolhendo muito requintadamente os réus e bodes expiatórios do todo social, cortina visível dos grandes criminosos.

Também nesse aspecto os média são um risco e uma riqueza para a família. Podem ser vigias dos grandes valores da família e da sociedade, na sua narrativa mesmo de aspecto cru e cruel da vida.

Mas por isso mesmo podem ser um risco, ao olharem o todo humano como mero objecto de espectáculo. Perdendo-se, quantas vezes, na confusão entre informar e revirar uma estrumeira aberta.

Estamos certamente num segundo tempo informativo do processo Casa Pia. Os média deram visibilidade a todos os erros existentes em variadíssimos sectores da nossa sociedade. Mas, nem de longe nem de perto, são os únicos responsáveis de toda a amarga sequência de desaires que este processo já conheceu.

Todos precisamos aprender, todos os dias, e ninguém deve fugir ao reconhecimento dos próprios erros. Mas interessa, antes de tudo, objectivá-los sem reducionismos, repetidores banais de lugares comuns.




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