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«Vou amanhã…»

Não pretendo endireitar o mundo. Apenas sentir e dizer que se pode fazer alguma coisa para que ele não se entorte mais

N/D
12 Mai 2004

Estava eu parado ao vermelho, ali na avenida da cidade. O miúdo, oito, nove anos, olhos vivos, apareceu de repente e lançou, para dentro do carro, a mão aberta, sem nada dizer. O gesto bastava.
Eram dez horas. «Mas tu devias estar na escola a esta hora…» – disse-lhe eu. «Vou amanhã…» E logo voltou costas, dirigindo-se ao carro que estava atrás. Uma senhora, ao mesmo gesto do miúdo, lá lhe deu umas moedas. O padre foi o antipático.

Vinha de viagem. A meio da manhã, o repórter da rádio entrevistava, junto à bilheteira do estádio, gente que ali tinha passado a noite para comprar bilhete. «Mas você estuda?…» – perguntou a um jovem, embrulhado num cobertor, que estava desde as quatro da tarde do dia anterior. Foi ele próprio que o disse. «Estudo – respondeu ele – mas, para o Porto… falta-se às aulas». Eu vivi o primeiro caso e ouvi o segundo. Ninguém me contou.

Dois casos da semana passada. Tanto se pode passar adiante, como tentar reflectir um pouco e pesar o que, nisto tudo, também pode depender de nós.

Aquele miúdo tem pais. Onde estavam? Talvez a pouca distância para ver o “negócio” e viver dele. O miúdo já sabe de cor o recado. E tem de agir assim, porque, ou apresenta resultados, ou recebe tabefes. Escola, para quê?

Andam aí os noticiários ainda cheios de Casa Pia. Mostram sempre os advogados. Que propaganda gratuita! De vez em quando, também ainda os suspeitos. As crianças já são apenas implícitos de um romance sujo. Ninguém fala delas. Disto tudo, parece que os objectivos dizem mais a outros do que a elas? Sempre a mesma coisa.

As autoridades não poderão identificar as crianças da rua e, através delas, quem as explora? O crime é grave. O gesto de passar ao lado vem de longe e tem muitos adeptos. O Mestre falou deles na parábola do samaritano. E não se saem bem da narração. A marca do seu gesto ficou para a vida.

Claro que se pode faltar, impunemente, às aulas. Se for preciso até se apresenta prova que justifique a falta. Há pais que não se importam de a ir mendigar a médico amigo. «Pelos filhos faz-se tudo».

Tudo? A escola regista. Que mais poderá ela fazer?

Isto é o dia-a-dia e não me dá nenhum consolo. A outros, de igual modo.

Não pretendo endireitar o mundo. Apenas sentir e dizer que se pode fazer alguma coisa para que ele não se entorte mais. Há sempre quem precise de um suplemento de vontade. De ouvir o que não agrada, mas pode cair certo, como remédio que dói e cura. Desde que sejam mais a fazê-lo, com amor.

Há que sentir, por dentro, o grito de crianças presas no arame farpado do desamor. Elas têm direitos como as outras crianças. Há que sentir ao vivo a pobreza de jovens que deixam os deveres para se agarrarem ao que lhes dá gosto. Há que sentir que mudar para melhor, pessoas e ambientes, está ao nosso alcance. «Vou amanhã»! Para o miúdo, amanhã, igual a hoje. A rua rende mais que a escola. Quem explora, bem o sabe. E a gente passa ao lado.




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