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“Só neste país”!

Acusar a máquina do fenómeno desportivo – sobretudo do sistema do futebol – até serve para distrair dos reais problemas autárquicos, empresariais, de governo ou teias internacionais

N/D
10 Mai 2004

Este slogan/refrão foi-nos presenteado por ocasião do 30.º aniversário do 25 de Abril. A (r)evolução esteve na rua, percorreu placards e discursos, saiu em manifestações e condecorações, surgiu em iniciativas dos vários extremos partidários e qual ‘muro das lamentações’ colectivo foram-se desfiando memórias, recriando expectativas e até reabrindo feridas.
Mas aquele slogan/refrão dizia que, trinta anos depois, estamos melhor: na saúde, no desemprego/trabalho, na fiscalidade/impostos, nas estradas, na educação/escolaridade… Nalguns casos – dirão os mais cépticos – talvez, noutros – sussurram uns certos optimistas – ainda falta muito caminho!

De facto há situações que acontecem ‘só neste país’:

. Investir em tantos estádios de futebol e, nas mesmas cidades, os hospitais estarem degradados e sem capacidade de atendimento mínima;

. Exigir regalias de trabalho e dar (tão) pouco para a construção das empresas, as quais, uma vez falidas, não pagam os salários, despedem e fecham;

. Fugir ao fisco e aos impostos, criando injustiça, má-fé, cumplicidades ou conluios, senão na forma real ao menos na forma tentada, suspeita ou desonesta;

. Matar ou ser morto nas estradas torna-se hoje a primeira causa de insegurança no nosso país;

. Duvidar da justiça – tendo em conta os vários intervenientes – torna-se a atitude mais habitual, tal a morosidade e a disfunção dos inúmeros intérpretes;

. Acusar a máquina do fenómeno desportivo – sobretudo do sistema do futebol – até serve para distrair dos reais problemas autárquicos, empresariais, de governo ou teias internacionais;

. Promover um certo cançonetismo em volta de temas reli-giosos – com alguns padres-cantores com ou sem hábito – fora do contexto dos momentos litúrgicos mais ou menos apropriados.

Com efeito, ‘só neste país’:

– Se reclama tanto e trabalha tão pouco. Falta-nos a cultura do trabalho honesto, justo e concorde;

– Se tenta enganar/parecer, julgando os outros (normalmente) menos inteligentes. Falta-nos a cultura do bem comum, pois nunca nos tivemos de unir para recuperar dos cacos a nossa identidade física e material;

– Se promove o disfarce e o compadrio. Falta-nos a cultura da verdade, aceitando que os outros também a possuem e ninguém é dela senhor absoluto.

Mas é este país com quase novecentos anos de história que temos todos de construir, agora que a Europa está unida – ao menos no papel – num projecto a vinte e cinco países/nações. Basta de fixarmo-nos no nosso sebastianismo. Está na hora de sermos dignos dos nossos antepassados, envolvendo nesta salutar construção as gerações actuais e (sobretudo) as vindouras.




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