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Os meus locais de fuga

Permitam-me que feche os olhos para um sono profundo de cura, para ver, se, ao acordar, o homem novo, que tantos prometeram, já chegou

N/D
10 Mai 2004

Deixem-me navegar no barco da ilusão e pensar que os autarcas não estão comprometidos com os clubes de futebol; deixem-me sonhar que os presidentes das câmaras não são os lobos maus da história do poder local; que os homens do poder, os que governam e os que se lhes opõem, têm as mais rectas intenções na coisa pública; deixem-me reconverter o fel da maledicência que por aí corre à solta e acreditar que existe justiça, educação e saúde igual para todos.
Só assim a minha alma sossega, e a minha ingenuidade de menino recria as asas que já foram brancas. Ando tão cansado das más notícias! Dou por mim a suspirar por aqueles tempos em que o tudo era cor de rosa e o horizonte era verde, da cor da esperança! Estou exausto das guerras em Israel, no Iraque, no Afeganistão, eu sei lá mais onde; tremo ao pensar no terrorismo, polvo daninho de braços longos, que até esqueci a fome e a subnutrição dos meninos e das mulheres de África.

As suas lágrimas, à míngua de espaço por onde correr, “entram em mim, ficam em mim presas”, caem lágrimas na Natureza e caem no meu coração. Permitam-me que feche os olhos para um sono profundo de cura, para ver, se, ao acordar, o homem novo, que tantos prometeram, já chegou. Não me acordem porque, enquanto durmo, a ilusão da sua chegada me embala o sonho e mantém viva a chama do amanhã talvez. Já não há espaço para me comover; os sofrimentos seguidos e de dimensão maior provocam a habituação e a insensibilidade. Estou a ficar como folha estiolada.

De vez em quando os comerciantes lembram-nos que há datas para celebrar: o dia do pai, o dia da mãe, o dia dos namorados, o dos avós e, amanhã, o dos primos ou tios; é o comércio de afectos, mas também é o cheiro do carinho e do amor: aragem refrescante na aridez do deserto dos dias sem sossego, dias de meninos estuprados, mulheres violadas, crianças ao abandono, nações engalfinhadas em guerras santas, imaginem, guerras santas!! – políticos emporcalhados, desportistas no mercado da escravatura rica, tudo numa amálgama de podres e fétidos que provocam náuseas e vontade de não suster o vómito.

O homem não pode, no entanto, fugir a esta informação bruta e tem de encontrar, para seu descanso, um refúgio em si mesmo; não é o do eremita, ou a fuga para o deserto, ou ainda arrostar com a solidão da selva inóspita, mas é o de procurar viver um mundo à parte. Nesse meu-mundo, as vozearias não passarão de ruídos. “Aqui, debaixo do tempo de musgo, e talvez o único local da minha toca onde actualmente me posso pôr a escutar as horas a fio sem nada ouvir”, (Kafka).

Este é meio e processos na construção dum templo de egoísmo, onde só eu vivo e onde a minha soleira se torna sempre, e em qualquer circunstância a mais importante que toda a rua. É este o retiro para onde me retiro, cada vez a espaços mais prolongados, fico neste abrigo, tenho medo que para sempre.

Também fujo para o passado, a redescoberta dos sons dos dias felizes, sem pensamentos, nem reflexões, nem especulações profundos que me azoinam, invejo-me no riso fácil de outrora ao simples bulir das folhas, ou da admiração da multidão das estrelas no firmamento celeste! Como foi bom ser criança! Agradeço a quem mo deixou ser! E penso que viver assim, selvagem de conhecimentos, desgarrado e livre para a fantasia, foi beber o bálsamo na velha tigela da felicidade.

Ou assim, ou a loucura.




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