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Uma comida que é intragável e que, além disso, é pouca

A história é mais ou menos conhecida. Num restaurante, um cliente reclama. Em primeiro lugar, porque a comida é de péssima qualidade. Melhor dizendo, é intragável. E, em segundo lugar, protesta porque, além de intragável, é pouca.

N/D
9 Mai 2004

Neil Postman, que foi o director do Departamento de Artes e Ciências da Comunicação da Universidade de Nova Iorque, usa este exemplo para censurar os que, perante a má informação, pedem mais informação (Tecnopolia. Quando a Cultura se rende à Tecnologia. Lisboa: Difusão Cultural, 1994).
Para mostrar até que ponto a informação em grande quantidade não serve para nada quando a sua qualidade é escassa, tivemos na terça-feira da semana que findou um excelente exemplo com a cobertura noticiosa da saída de Carlos Cruz do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Horas e horas seguidas de transmissão em directo apenas serviram para mostrar um espectáculo apalermado, polvilhado de momentos de involuntária comicidade, protagonizado pela aliança povo-jornalistas televisivos.

Como agora frequentemente sucede, o tema da notícia foi, nesse dia, apenas um pretexto para a RTP, a SIC e a TVI protagonizarem mais um espectáculo frenético em que a informação é um figurante bem mais dispensável do que a D. Lili Caneças. Esta senhora, que, refira-se, se instala nos acontecimentos como uma espécie de brinde inútil, funciona mediaticamente como um esvaziador simbólico.

Quando ela chega, qualquer pathos se esvai. Onde ela está, qualquer intensidade dramática desaparece. O relato da chegada de D. Lili Caneças a casa de Carlos Cruz mostrou bem o que é a informação no seu grau zero.

Quando os directos enfim terminaram, o telespectador conseguiu facilmente concluir que não dispunha de qualquer informação útil. Soube que a TVI usou um helicóptero para cobrir o “acontecimento”; soube que motas de vários canais televisivos acompanharam permanentemente a viatura em que viajava Carlos Cruz, circulando por vezes do lado de lá dos traços contínuos, conduzindo, portanto, como aqueles que esses mesmos canais denunciam quando querem prevenir a sinistralidade rodoviária; soube que os vários canais disputaram renhidamente os relatos do advogado Ricardo Sá Fernandes; soube que os jornalistas se empurraram permanentemente; soube, em suma, o que se passou do lado contrário ao do “acontecimento”. E, bem vistas as coisas, o “acontecimento” também tinha pouco para dar a saber.

A informação é hoje, para muitos, apenas o espectáculo da informação. Para esses, já não interessa sequer saber se o “acontecimento” justifica que se lhe conceda uma grande atenção, o que importa é determinar se o “acontecimento” possui os elementos que facilmente favorecem a realização de um espectáculo emocionalmente palpitante.

Sem uma elevada densidade de jornalistas por metro quadrado e sem uma significativa presença do povo opinativo, dificilmente há espectáculo. Sem um jornalista que, à porta de uma residência particular, diz – sabe-se lá porquê – que está a trabalhar em difíceis condições de segurança; sem uma senhora que grite: “Já só falta libertar o Bibi”; e sem o cavalheiro que acrescente: “Já só falta prender a Catalina Pestana”, uma transmissão televisiva fica mais pobre.

Neil Postman sustenta que a informação se tornou “uma forma de lixo, não apenas incapaz de responder às mais fundamentais questões humanas mas praticamente inútil em fornecer uma orientação coerente à solução de simples problemas vulgares”.

O que Postman lamenta é a cisão entre a informação e o propósito humano. “Somos uma cultura que se consome a si própria com informação”, diz ele. “Avançamos acreditando que a informação é nossa amiga, crendo que as culturas podem sofrer dolorosamente com uma falta de informação, e só agora se está a começar a compreender que essas culturas podem também sofrer dolorosamente com um dilúvio de informação sem significado”.

A inexistência de defesas contra os jactos ininterruptos de informação faz com que, afirma ainda Neil Postman, as pessoas não tenham maneira de descobrir um significado nas suas experiências, percam a capacidade de recordar e sintam dificuldade em imaginar um futuro razoável.




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