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Nem tempo teve de se despedir dos amigos

Profissionalmente muito competente, dominando todas as áreas do direito e não só a fiscalidade. Muito respeitado por colegas e magistrados. Verdadeiro príncipe no trato

N/D
7 Mai 2004

Ao romper da manhã, a fúnebre notícia cai, como uma bomba, sobre a cidade que ele amava e onde passou a maior parte da vida. E o telefone dos escritórios dos colegas ia tilintando e apanhando de surpresa tantos dos que, na barra do tribunal, estiveram com ele, ora do mesmo lado, ora do lado contrário, colaborando na justiça possível.
Conheci-o era eu ainda um modesto copista da Secretaria Judicial deste Tribunal de Braga. Estávamos em fins da década de cinquenta. Os advogados contavam-se, então, pelos dedos. Possuído daquela força de vontade que move montanhas, e subindo a pulso na vida, de simples empregado comercial, conseguiu chegar a aspirante de finanças.

Daí, como estudante trabalhador, começa a lutar pela realização do sonho de vir a ser um dia profissional ao serviço da Justiça. Isto no tempo em que o curso, em Coimbra, era osso ruim de roer.

Quanto trabalho, e quanta canseira, para chegar ao fim, na segunda época de 1958, e desabafar como César: veni, vidi, vici. E a partir desse inesquecível dia, passa a ter uma profissão liberal, para a qual não necessita mais, de declarar sob honra, estar integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas.

Que alívio. Agora mais solto, menos dependente, pode já demarcar-se do regime que esmagava, ao nascer, todo aquele que tentasse contrariar o seu curso ao arrepio da soberania do povo. Já antes se havia identificado com os princípios democráticos que, com certa celeridade, se vinham expandindo na Europa Ocidental, a partir do fim da Segunda Guerra, em 1945.

Não foi um activista de modo a conquistar o estatuto de antifascista. Primeiro porque sendo funcionário, não se podia dar ao luxo de comprometer a sua carreira académica e a vida de sua família. Contudo, já como advogado, colabora com a oposição ao regime em tudo que lhe era possível. Nunca faltara às comemorações, quando autorizadas, no Teatro Circo, do 5 de Outubro, com a PIDE à perna. Sempre pronto para assinar manifestos e colaborar nas listas alternativas aos candidatos da União Nacional, quando se brincava às eleições para a Assembleia Nacional.

Colaborou ainda, ao lado de Guilherme Branco, Humberto Soeiro, Ferreira Salgado, Tinoco de Faria e de tantos outros colegas, na candidatura de Humberto Delgado que abalou até às raízes o regime de Salazar.

Alinha pelo MDP e bate-me à porta, já depois do 25 de Abril, para lhe ceder temporariamente os baixos de um prédio acabado de construir na Rua de Santo André. Perguntou-me o preço e eu ri-me, dizendo-lhe que a liberdade que estávamos a viver pagava tudo. Ficou de pensar e acabou por desistir. Já o mesmo não se passou com o Partido Socialista que esteve muitos anos num prédio meu, na Rua do Raio, também gratuitamente, só de lá tendo saí-do, quando lhe foi possível mudar para casa própria.

Conta numa longa entrevista ao “Correio do Minho”, concedida ao director Costa Guimarães, em 2001, e novamente transcrita no passado dia dois, que passou por pide num julgamento de Victor Sá, ao sentar-se, por ignorância, no meio da polícia política. De esguelha, os advogados da oposição, ali presentes, comentavam: «com que então temos acolá um novo pide».

Mas tudo ficou esclarecido quando, no fim, foi abraçado pelo Victor. A entrevista justificou-se, além do mais, pela grande homenagem promovida pela Ordem dos Advogados e Associação Jurídica, a propósito dos seus 80 anos de idade, na qual participou o bastonário José Miguel Júdice que, aliás, havia sido condiscípulo do filho do homenageado, José Manuel, de Óscar Gomes e de mim próprio.

Aos setenta anos distancia-se de vez da actividade política activa, talvez por não concordar com os desvios da democracia representativa já estabilizada, e, sem alternativa à vista, pela qual havia lutado antes e depois do 25 de Abril. Aliás, mais confessa ainda, na citada entrevista, o quanto, positivamente o influenciou a queda do Muro de Berlim. Que dizer do seu perfil como homem? Sempre ao serviço de uma desinibida esquerda social, sempre do lado dos mais fracos.

Como político, lutou pelos princípios em que acreditava. Mas sem ódio. Respeitava quem pensava de modo diferente, tendo mesmo na sua roda de amigos, saudosistas do antigamente. E não se inibiu de considerar o lado comum dos dois homens que mais o marcaram na vida: Álvaro Cunhal e Oliveira Salazar. Ambos lutaram, refere, sem desvios, uma vida inteira, pelos ideais em que acreditavam e ambos foram sérios e desprendidos de bens materiais.

Coisa rara nos dias de hoje. Ocorre-me aquele conto meu, no qual desce uma alminha do céu à terra, que responde assim, a quem lhe pergunta se Salazar estava no Céu: «Para já não, está ainda no purgatório. Mas para lá vai, para lá vai. É que governar mais de quarenta anos e morrer pobre é uma ate-nuante grande». Comoveu-me a homilia do meu amigo Cónego Fernando, na missa de corpo presente, ao referir o carácter e a sua solidariedade social.

Afirmou que não poucas vezes serviu a Igreja, e nunca cobrou um centavo. Profissionalmente muito competente, dominando todas as áreas do direito e não só a fiscalidade. Muito respeitado por colegas e magistrados. Verdadeiro príncipe no trato. Jamais se apagará da nossa memória aquele iluminado sorriso, sobretudo quando contava passos de bom humor da sua vida ou de outras vidas que com ele se iam cruzando. Estarrecido fiquei, quando, logo de manhã, minha mulher me dava a infausta notícia da morte do colega Tarroso Gomes.

Aquela mesa, logo à direita, quem entra, do Café Sporting, jamais desfrutará da sua presença amiga, onde sempre bem disposto passava momentos de alegre tertúlia com amigos. E onde, sorridente e avô baboso do também nosso colega, Luís, tomava café, ao cair da tarde, este um jovem prendado, de punhos de renda, no dizer de minha mulher, Maria Irene que lhe faz companhia na natação.

Reflictamos, finalmente, caro leitor, nos pungentes versos do nosso bracarense de gema, João Penha, grande poeta e causídico, especialista no cível, com banca montada no Campo da Vinha, cerca de quarenta anos, escritos seis meses antes da sua partida a 4 de Fevereiro de 1919: «Cada dia que morre, amigo, é um passo / Para as terríveis sombras do infinito».




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