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Luzes e sombras do futebol

Há um outro elemento que lança algum mal-estar sobre o mundo do futebol, que é o fenómeno das claques, «frequentemente ligadas a episódios de intolerância e de agressividade que desembocamem graves manifestações de violência»

N/D
6 Mai 2004

O futebol: luzes e sombras de um desporto mediático» é o título do terceiro capítulo da Nota Pastoral «O Desporto ao serviço da construção da pessoa e do encontro dos povos». Tem por finalidade provocar uma reflexão sobre o que no futebol há a incrementar e a tentar eliminar.

No futebol, diz-se na referida Nota, «estão potencialmente presentes as grandes qualidades que o desporto, em geral, apresenta: a dimensão lúdica, a possibilidade de divertimento e de recriação salutar, a alegria e a festa, a beleza e a criatividade, a valorização do corpo, a promoção da grandeza e da dignidade do homem, a educação para as virtudes que estão na base de uma digna convivência humana, a possibilidade de contribuir para a construção de um mundo mais unido e mais tolerante» n.º 10).

Antes desta Nota, publicou também a Conferência Episcopal, em 15 de Setembro de 2003, a Carta Pastoral «Responsabilidade solidária pelo bem comum». No número quatro, ao enumerarem-se sete pecados sociais, refere-se «a exagerada comercialização do fenómeno desportivo, que tem conduzido à perda progressiva do sentido do “jogo” como autêntica actividade lúdica, e a falta de transparência nos negócios que envolvem muitos sectores e profissionais dalgumas áreas do desporto».

Desenvolvendo este pensamento, enumeram-se na citada Nota «algumas sombras que pairam sobre o futebol» e que podem fazer dele um fenómeno contrário ao desenvolvimento integral da pessoa e ao bem das sociedades.

Lê-se, por exemplo: «A comercialização do futebol tem levado a que as equipas se tornem peças na engrenagem de sociedades anónimas desportivas, que se regem por interesses comerciais, por critérios de rentabilidade económica e pelo espírito de lucro.

Dessa forma, o futebol deixa de ser uma festa, uma ocupação jubilosa e salutar dos tempos de lazer, um esforço gratuito para superar os próprios limites, uma competição leal onde os outros são adversários mas não inimigos, e torna-se um negócio regido pelas leis do mercado. O futebol arrisca-se a perder, portanto, o seu papel de desporto ao serviço da construção integral do homem, e torna-se uma máquina desumana, posta ao serviço de uma cultura de egoísmo e de avidez».

«Esta realidade obriga os dirigentes, os atletas e os clubes a viverem sob a pressão de obterem sucesso a todo o custo, mesmo utilizando métodos pouco claros e que, frequentemente, são deseducativos e desumanizantes.

Com frequência assistimos ao espectáculo deplorável dos discursos agressivos dirigidos aos adversários, das “guerras psicológicas” destinadas a decidir o jogo fora do campo, das pressões sobre os árbitros, das tentativas de manipulação da opinião pública, dos cortes das relações institucionais entre os clubes, das tentativas de condicionar as instâncias onde se decidem as questões controversas do futebol. Dessa forma, o futebol deixa de ser um veículo dos valores que unem as pessoas e que geram comunidade, para se tornar um factor de divisão, de ódio, de ruptura, de fractura social e de violência» (n.º 12).

Mas há um outro elemento que lança algum mal-estar sobre o mundo do futebol, que é o fenómeno das claques, «frequentemente ligadas a episódios de intolerância e de agressividade que desembocam em graves manifestações de violência» (n.º 13).

A Nota refere no mesmo número 13 o uso de substâncias químicas proibidas, para melhorar a competência física dos atletas, que além de viciar os resultados desportivos, põe, frequentemente, em risco a saúde e a vida daqueles que as utilizam. Fala do fabrico de “jogadores-ídolos”, manipulados por empresários, tentados pelos milhões dos clubes economicamente poderosos, vendidos para equilibrar as contas do clube-empresa, dispensados quando deixam de ser produtivos de acordo com critérios de lucro. Fala ainda da manipulação do futebol e dos clubes para fins políticos e eleitoralistas.

Penso ser necessário viver o fenómeno futebolístico de modo que ao lado de um desporto que ajuda a pessoa deixe de haver outro que a mortifica e atraiçoa, que só recorre ao lucro, que divide, como se lê no número 11.

Isto exige a colaboração dos atletas, dos dirigentes, dos jornalistas e dos adeptos, como se escreve no número 17:

«- que os atletas continuem a dignificar o mundo do desporto, oferecendo-lhe, não só o melhor das suas forças físicas, mas também, e sobretudo, promovendo, com o seu comportamento dentro e fora do campo, os valores da lealdade, da solidariedade, do comportamento correcto, do respeito pelos outros;

– que os dirigentes sejam os guardiães do verdadeiro sentido do “jogo”, façam uma gestão equilibrada das instituições e estruturas a que presidem, promovam a verdade desportiva, fomentem o respeito pelas instituições, actuem com transparência; que, como educadores, procurem inculcar uma cultura dos valores elevados, como a lealdade, a amizade, a tolerância, e o respeito pela verdade; que rejeitem e denunciem a mentira, os negócios nebulosos, a agressividade, o desrespeito pelo adversário;

– que os jornalistas cumpram o seu dever de informar, sejam isentos e evitem divulgar suspeições infundadas ou explorar situações que podem gerar tensões ou conflitos na opinião pública: o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do desporto também passa por uma informação isenta e objectiva, que evite o recurso fácil ao sensacionalismo;

– que os adeptos, em geral, descubram no futebol um divertimento sadio, uma forma de lazer, uma expressão de arte e de beleza, uma festa de encontro e de união, para além de todas as barreiras de raça, de língua, de cultura ou de cor clubística; que o desporto não seja um factor de conflito ou de divisão nas famílias ou um obstáculo para o encontro, a partilha e a solidariedade familiar; que o futebol não seja um factor de alienação, que faça esquecer as responsabilidades que cada um tem para com Deus e para com os outros».




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