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“Galo” e “franganote” de Barcelos

Embora esteja certo não ter havido da parte do Dr. Duarte Lima qualquer intenção de fazer injúriaao símbolo da minha terra, aqui fica o desagravo

N/D
6 Mai 2004

Na sequência da queda da cadeira do Dr. Oliveira Salazar, em finais de 1968, e da sua consequente substituição pelo Dr. Marcello Caetano, o regime do Estado Novo, reconhecendo porventura a fragilidade resultante da situação interna e externa do País e do afastamento da figura do carismático e autocrático Presidente do Conselho de Ministros, ensaiou uma tentativa de abertura a sectores democráticos do centro e da direita, dentro da linha de “evolução na continuidade” que o novo Primeiro Ministro adoptou como slogan de propaganda.

O Prof. Marcello Caetano convidou, então, para integrar a lista de candidatos a deputados pela União Nacional (rebaptizada de Acção Nacional Popular) várias personalidades de grande craveira intelectual e moral, dentre as quais dez acabaram por ser eleitas, em 1969. Figuravam neste grupo, além doutros, os Drs. Francisco Sá Carneiro, Mota Amaral, Pinto Balsemão, Magalhães Mota, Pinto Leite e o Prof. Miller Guerra que acabaram por ficar conhecidos na Assembleia Nacional pela “ala liberal”.

Tal epíteto ficou a dever-se à defesa empenhada das liberdades que o grupo patrocinou no hemiciclo de S. Bento e não a qualquer ideologia liberal que perfilhasse. Ao que se sabe, todos eles acreditavam na democracia representativa e nas virtualidades da social–democracia, sendo certo que, no seio daqueles deputados, avultou a figura frágil, mas corajosa, frontal, íntegra e coerente do Dr. Francisco Sá Carneiro.

Foi de tal forma intenso e firme o seu ímpeto reformador e o seu propósito de fazer a transição para a democracia pela via reformista que, num curto espaço de tempo, aquele grupo apresentou uma série de projectos, designadamente em matéria de liberdade de expressão, presos políticos, prisão preventiva e aproximação à Europa.

Mas o projecto que, de longe, mais desconfiança e temor causou nas fileiras do regime foi o que versou sobre matéria de revisão constitucional, no qual, além do mais, se preconizava a abolição da censura e a eliminação das restrições aos direitos de reunião e de associação e a outras elementares liberdades cívicas.

O arrojo e heterodoxia destas posições, levaram muitos dos seus colegas deputados e outras figuras gradas do regime a censurar os membros da dita “ala liberal”, muito especialmente, o seu líder, Dr. Francisco Sá Carneiro, a quem chegaram a apodar de “galo” de Barcelos.

É claro que, sob a objectiva carga difamatória desta expressão, se entrevia um sentimento de inveja ou de cobardia por parte dos impetrantes que, manifestamente, não teriam nunca coragem para enfrentar o que então representava um autêntico crime de lesa-majestade contra o regime vigente.

Com costados barcelenses, porque filho de um ilustre jurista nado e criado em Barcelos, o Dr. Sá Carneiro, ao invés de tomar aquele apodo como injurioso, sentiu-o e considerou-o como um elogio, pois bem conhecia a reputação de bravura, altivez, confiança, raça e honradez que caracteriza os verdadeiros e autênticos “galos” de Barcelos.

Paradoxalmente, julgando diminui-lo, os próceres do regime, sem o saber, acabaram por elogiá-lo. E muito justamente, porque o Dr. Sá Carneiro foi, deveras, um grande político e estadista. Por isso é que Barcelos o perpetuou numa estátua de bronze que lhe ergueu numa das suas mais arejadas praças a que também deu o nome dessa tão ilustre personalidade.

Na sua última crónica no Expresso, a propósito da grosseira atitude do ministro de Estado e da Defesa na sessão solene comemorativa do 25 de Abril, mascando uma pastilha elástica, o Dr. Duarte Lima classificou-a, além do mais, como relevando de “um estilo de franganote de Barcelos”.

Embora concedamos que o ilustre cronista possa desconhecer o carácter e a fibra dos “galos” de Barcelos e, consequentemente, dos seus mais jovens espécimes, certo é que, no caso em apreço, diferentemente do que, no passado, sucedera relativamente ao saudoso Dr. Sá Carneiro, acabou por desprestigiar o maior símbolo de Barcelos.

E isto por que, apesar de repetidamente se dizer admirador de Francisco Sá Carneiro, o Ministro de Estado e da Defesa, com aquela atitude, mas também por outras bem piores, reveladoras da sua falta de coerência e de sentido de Estado, não merece ver associado o seu nome àquele ex-libris barcelense.

Embora esteja certo não ter havido da parte do Dr. Duarte Lima qualquer intenção de fazer injúria ao símbolo da minha terra, aqui fica o desagravo.




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