Fotografia:
Saudades do Padre Barreto

Enquanto passava a procissão os homens tiravam os chapéus da cabeça. Hoje em dia já não é tanto assim, infelizmente, mas também os chapéus já são raros. Parece mais que as pessoas estão a ver passar um cortejo folclórico

N/D
5 Mai 2004

Ainda hoje, passados quase 30 anos da morte do Padre Barreto, me vem à memória a sua figura imponente. Era alto, forte, um pouco calvo, mas de um aspecto agradável.
Andava sempre com a sua batina vestida. Era muito tradicional, muito pouco dado a modernismos.
Dizia-me ele quando eu frequentava a doutrina:

– «Fui eu que te baptizei. Fizeste um berreiro com a água benta! Tinhas bons pulmões!»

Eu devo pertencer ao grupo dos primeiros baptismos do Arcipreste Barreto.

Lembro-me de ele sempre morar na Casa da Residência (era assim chamada a casa onde morava), na Raposeira.

Diga-se de passagem que não era a melhor habitação para ele viver e muito menos para receber os sacerdotes que vinham fazer as confissões ou as pregações na altura da “desobriga” (confissões anuais que antecediam a Páscoa).

A casa era muito pequena, não tinha quartos suficientes para albergar os colegas. Na altura das confissões os padres dividiam-se entre as casas do sr. António Revolta e do sr. Carneiro (já falecidos). Não chegou a ter o prazer de estrear uma nova residência, infelizmente.

O Padre Barreto vivia com duas irmãs, a Mariazinha e a Ildinha, muito dinâmicas e que resolviam qualquer situação.

Quase todos os dias, por volta do meio-dia, vinha a pé almoçar a casa. Parava no caminho para cumprimentar algum paroquiano, ou mesmo até para lhe dar um sermão, que ele para isso não se ensaiava muito.

Se encontrava meninos ou meninas pelo caminho que tivessem faltado à doutrina ou viessem brincar para o adro na hora da missa do Domingo já se sabia que o puxão de orelhas estava garantido.

Sempre que o encontrávamos tínhamos que lhe beijar a mão. Era um sinal de respeito que os nossos pais nos ensinavam.

Naquele tempo beijava-se a mão aos pais, avós, tios, padrinhos e aos padres…

No Verão o Arcipreste Barreto vinha para as escadas de pedra que davam para a rua e sentava-se à fresca, em amena cavaqueira com algum vizinho da porta e lá ia pondo os assuntos em dia. Gostava muito de saber as novidades.

Além de curar a freguesia de Refojos, também era professor de Moral no Colégio de São Miguel de Refojos. Por isso, além de me baptizar, de me fazer a primeira comunhão, ainda foi meu professor.

Ficava embevecida a ouvi-lo contar as parábolas, lendas e factos bíblicos, sempre acompanhado do seu cigarrito. Era um vício de que ele próprio se penitenciava.

Muitas vezes nas suas aulas também se passava pelas brasas, principalmente no Verão, mas fingia que não se apercebia, porque não dizia nada.

Na igreja gostava de tudo com muita ordem, tudo muito ensaiadinho, não gostava que se desafinasse quando se entoavam os cânticos religiosos.

Ainda recordo aquele berro enorme que ele deu do altar, porque uma senhora de idade começou a cantar lá do fundo da igreja quando o coro já estava a terminar.

O Arcipreste Barreto era uma figura que dificilmente se pode esquecer. Autoritário, quando era para impor ordem, mas tolerante e com um coração enorme. Tinha um sorriso simpático e bonacheirão que lhe enchia as bochechas redondas.

Nas procissões das festas da Senhora da Saúde ou de São Miguel sabia-se que ia haver as tradicionais reprimendas às mãezinhas que teimavam em acompanhar os filhos de mãos dadas dentro cortejo. Logo que se apercebia que elas teimavam nisso, o Padre Barreto acercava-se delas e na sua voz forte avisava:

– «As mães dos meninos e meninas façam o favor de sair rapidamente do meio da procissão. Eles não têm medo. Tenham vergonha. Todas as festas repito a mesma coisa».

Controlava o trajecto completo. Todos tinham de estar com muito respeito. Enquanto passava a procissão os homens tiravam os chapéus da cabeça. Hoje em dia já não é tanto assim, infelizmente, mas também os chapéus já são raros. Parece mais que as pessoas estão a ver passar um cortejo folclórico.

Dizem que é o progresso. Não é por mal, o mundo é que está assim!

A sua morte apanhou todos de surpresa. Foi um choque enorme, principalmente a maneira como morreu. Que se saiba não estava doente. Não me lembro de ter visto um enterro assim.

Foi enorme a saudade que deixou aos cabeceirenses e em especial às pessoas da Raposeira que com ele conviviam diariamente.

Hoje o seu nome está perpetuado na toponímia cabeceirense. É na Praça do Mercado onde se realizam a feira semanal e diversas actividades culturais ao longo do ano. Bem no seio do “seu” povo, como ele gostava.




Notícias relacionadas


Scroll Up