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784. Meu caro Zé:

1 Sinto que andas bué grilado com essa cena das condecorações que vai por esse país abaixo! E, então, seja porque vão escasseando os peitos, seja porque a estranhos feitos se dá nova catadura, esta nacional mania tem-se passado dos carretos!

N/D
5 Mai 2004

E perguntas: porquê? E pasmas: então, sendo nós um país tão broeiro, tão sempre na cauda do pelotão, tão rasca, como podemos ter tanta gente com tamanho brilho, tanta sabença, tanta veneração nacional?

Será, meu velho, que tais ilustres lusitanos não põem seus cobiçados talentos ao serviço da comunidade ou, alfim, tudo não passa duma feira de vaidades, dum festival de nacional-porreirismo?

Depois, tu sabes bem e até de cor, que, politicamente, é preciso animar a malta, chamar os filhos pródigos, repartir o bolo e desfrutar de uma boa sessão de beija-mão e cerviz dado à canga!

E, para isso, nada melhor do que uma lustrosa medalha, uma refulgente insígnia, uma pesada comenda, uma singela menção honrosa para vergar jactâncias, amolecer fervores e chamar ao redil o rebanho tresmalhado!

Sobretudo, dar e dar, para em troca receber! Semear para colher! Tal qual como diz o poeta:

Condecoro o presidente
e sabem por que razão?
Por ter dado a tanta gente
tanta condecoração!

2. Assim é que, caro Zé, esquelético, obeso ou assim, assim, filho da mãe ou da lua, cristão ou sarraceno, com pêra, bigode ou campo pelado, fumando charuto, cachimbo, cigarrilha ou três vintes, dado ao fastio ou ao festim, virtuoso, mafioso ou nem tanto assim… não há homem do Poder que não se renda ao fascínio da condecoração!

E é vê-lo a transformar os dias da aldeia, da vilória, do município ou seja do que for em arrastadas sessões de refinado tliiim! tliiim! da lustrosa medalha, da refulgente insígnia, da pesada comenda ou da singela menção honrosa!

Parece mesmo, meu velho, com tal medalhamania, haver uma evidente leviandade, falta de critério e rigor na atribuição da agraciação, condecorando-se a torto e direito, à esquerda e à direita!

Correndo-se o risco, com tamanha embalagem e tal malandragem que por aí medra, de se condecorar o incondecorável, ou seja, de dar ao vilão a medalha ou o medalhão!

Repara só: se a operação apito dourado, por exemplo, ainda vai no adro, ai, meu velho, ninguém garante que qualquer dia a justiça se veja a braços, mãos e pés, com apitadores “Torre e Espada” ou “Cruz de Cristo”! E caso é para pensar quão pesada não ficará a mão e a consciência que tais brilhos pôs em peitos tão descaídos!

E tu, meu velho, que vens de sachar milhos, podar vides, regar leiras, semear tremoços, malhar centeio, ceifar feno, mungir vacas, adubar navais, cevar porcos, capar melões… tanto ou mais tens feito, ao teu jeito, por este país do que muitos medalhados, tão-só especialistas em retórica de salão ou ideologismos de caserna! E onde está tua medalha?

Com o poeta, lá vamos cantando, rindo e marchando, ao toque, não de caixa, mas deste presunçoso tilintar da nacional medalhação:

Quem és tu, de onde vens?
Conta-me lá os teus feitos!
Que nunca vi gente assim
Pequena e com tantos feitos!

Já chegou o dez de Junho,
O dia da minha raça!
Tocam cornetas na rua,
Brilham medalhas na praça!

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito!




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