Fotografia:
Um país sob suspeição

Como é que transpira cá para fora o que não podia surgir na praça pública?

N/D
4 Mai 2004

O nosso país não goza de boa saúde. Dir-se-ia que nele se instalou uma depressão progressiva, que não augura felicidade a ninguém. Uma doença psíquica é sempre das piores que podemos supor, porque não se vê, não se ouve, mora dentro dum sujeito e fá-lo gerar comportamentos estranhos.
Quando se parte uma perna e se recobre com gesso, todos ficamos a saber – é evidente e visível – que a pessoa foi vítima de um qualquer acidente; o mesmo se diga se um catarro ou uma constipação nos leva ao espirro constante e à rouquidão inelutável; são sinais audíveis da maleita.

Não assim com um estado depressivo. Quem o sofre, sente dificuldade em exprimi-lo, o que constitui um primeiro escolho para o bom relacionamento. E quem o ouve, fica com os braços manietados sem saber bem como proceder, porque o que entende não é razoável nem facilmente compreensível e o que pode aconselhar não sabe se vai surtir bom efeito, ou, pelo contrário, causar um agravamento do estado em que o interlocutor doente se encontra.

Portugal é um enfermo complexo, porque todos nós vivemos sob o espectro forte da suspeição a respeito de quem nos dirige, de quem se encontra na oposição, de quem nos diverte, de quem nos alimenta o amor clubista, enfim, todos nós desconfiamos de todos os outros.

Os políticos não se entendem, os meios de comunicação berram e incendeiam paixões, a Judiciária prende, a justiça demora, o futebol – grande alimentador dos espaços afectivos de muitos portugueses – afigura-se apodrecido, o mundo do espectáculo apresenta protagonistas acusados de pedofilia, o desemprego cresce, a gasolina sobe, os bolsos começam a perder peso e estabilidade…

Onde é que tudo isto vai parar?

Houve debate no Parlamento. O primeiro-ministro defendeu-se, a oposição atacou. Chamaram-se nomes, não se entenderam uma vez mais. E este panorama que vemos repetir-se com regularidade é quase tudo o que os nossos políticos parecem poder-nos oferecer.

Entretanto, se abrimos os jornais, ouvimos a rádio, ou vemos televisão, o horizonte é ainda mais calamitoso. Os títulos inflamam situações, as afirmações dos cabeçalhos ou das informações dos diversos noticiários quase nos fazem prever para breve o fim do mundo.

As catástrofes verbais ou visuais são diárias; quase juraríamos que toda a vida humana gira em seu torno, ou que ela é uma catástrofe crónica, explosiva e tétrica, intervalada por alguns espaços de bonança e de serenidade. A realidade, na sua essência, é álgida e mórbida; e isto define-a.

O panorama, num reduto simultaneamente de descontracção e de sublimação da nossa adrenalina, também entrou pelas vias cavilosas da patologia. Já não confiamos nos resultados do futebol; também ele se corrompeu. Sendo assim, como confiar nas vitórias dos nossos clubes? O amante do futebol era um adepto feliz e satisfeito. Descobriu agora que se move num terreno de areias movediças, porque a Judiciária já anda a vasculhar meandros contundentes e sinuosos.

Quanto à pedofilia, surge de momento como um tema que já foi de primeira página e agora se remeteu a um lugar um pouco mais subalterno… Por quanto tempo? Enquanto houver outras “novidades” mais vendáveis, pensam alguns…

Também o mundo da investigação policial principia a levantar as suas suspeições. Como é possível que saiam tantas notícias sobre assuntos que deviam ser reservados? Como é que a comunicação social logra saber os escaninhos dos processos mais sigilosos? Como é que há gargantas que falam o que deviam calar? Como é que transpira cá para fora o que não podia surgir na praça pública?

E as perguntas poderiam continuar a formular-se, num sem número de interrogações que, no meio de tanta suspeição e ruído, acabam por ficar sem resposta adequada.

O nosso país está, pois, doente. Até a selecção de futebol não alcança bons resultados, revelando fraqueza na defesa e falta de concretização no ataque. Será que tudo está assim tão mal? Como dizia alguém em desespero: «Parem Portugal, que eu quero sair…». Quem acode a isto?




Notícias relacionadas


Scroll Up