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Adivinhem se são capazes

Mexeram num edifício velho, o do futebol. Agora vamos assistir à sua derrocada

N/D
3 Mai 2004

Mexeram num edifício velho, o do futebol. Agora vamos assistir à sua derrocada. Se não derrocada total pelo menos ao arreio, peça por peça das partes menos nobres, até que fique de pé o que é de preservar e manter.
A fachada que tem, também não tem valor. Há décadas tínhamos dado a nossa opinião sobre a arbitragem, mas foi-nos dito que nos calássemos porque de futebol não percebíamos patavina. E era verdade. Daqueles meandros e promiscuidade que agora o “Apito Dourado” trouxe à tona, borra feia, não percebíamos porque só sabe do convento quem lá está dentro, mas pressentíamos, a essa distância, que algo ia mal no reino da Dinamarca.

Agora que há implicados de nomeada, e que existem declarações a dizer que aquilo que sabemos e vemos é apenas a ponta do iceberg, ficamos com a sensação de termos sido pioneiros com razão, mas, como todos os pioneiros, com razão fora de tempo. O fruto, pelos vistos já estava sazonada e o tempo que entretanto passou, fê-lo apodrecer. Caiu da árvore onde alguns que só a escada da influência lhe podia chegar.

Agora esborrachou-se contra o chão e ali jaz em postura de defunto. E entramos todos em sofrimento. Todos? Quase todos porque nos habituamos de tal maneira à mentira desportiva que achamos como certo aquilo que é falseamento desportivo. Aquelas mentiras foram, e são, o alimento de tantos comentadores desportivos, jornais da especialidade, discussões de cafés e esquinas. Se tudo se tornar claro e transparente vira enjoo, desprazer e talvez desemprego para estes.

Todo o esquema diabólico tem a atracção da aventura esconsa e, por isso, retira de si, para emprestar aos outros, a fruição do pecado e do fruto proibido. Tantos a gritar por justiça e ela, a safada, de olhos vendados, a rir-se ironicamente porque pensa, como eu, que todos a querem mas ninguém a ama.

Só os pobres, os humildes e ofendidos – os pequenos clubes de futebol -, querem justiça nos resultados porque os grandes, aqueles que ganham ou sonham vir a ganhar campeonatos e títulos atrás de títulos, estão-se borrifando para a verdade desportiva. E os adeptos? São iguais: o que querem é dizer «ganhamos», nem que seja roubado; é preciso que jogo a jogo cheguem os três pontos da vitória. Antes jogar sujo e ganhar do que jogar limpo e perder. Preço moral? Quem fala aqui em preço? Ganhar, triunfar, ser rei… eis o auge da felicidade dos que, sem mais ter para ser, nisto jogam a sua auto-estima.

Agora foram as arbitragens que espirraram o lodo do fundo, mas já logo hão-de ser os dinheiros, os contratos, a escrita dos clubes e das sociedades desportivas, as transferências subterrâneas. Temos como certo que se nada nem ninguém meter mordaça na Judiciária o iceberg vai mostrar a montanha!

E se o prazer dos anões é ver cair os gigantes, igualmente é verdade que este prazer em nós é minguado porque estes gigantes não passam de anões.

Aí vai uma adivinha: se santos não são e gigantes também não, então o que são? São os mesmos que não querem, nem lhes falem nisso, que a arbitragem tenha uma organização totalmente independente do poder das associações, das ligas, ou das federações desportivas. Tão independentes devem ser estes sujeitos colectivos como a justiça é do poder político.

Porque não também do Estado? A quem não interessa esta independência total? Quem deseja ter apito para tudo, quem quer controlar o quê e para quê? Eis a resposta para a adivinha que lhe propusemos em cima.




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