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Concertos nas igrejas

Ao bispo compete a aprovação do programa musical de cada concerto, auscultada a Comissão Diocesana de Música Sacra, cuja decisão não se baseará meramente em gostos pessoais

N/D
30 Abr 2004

Em 1994, a Congregação do Culto Divino publicou uma Instrução sobre os concertos nas igrejas. Pela primeira vez, um documento do magistério universal aborda expressamente a música na igreja fora da liturgia, considerando que o renovado interesse pela música é «uma das manifestações da cultura contemporânea».
A globalização da música clássica através da Rádio, Televisão e suportes de gravação, não limitou a realização de concertos, antes a fomentou. O uso de muitas igrejas, por motivos práticos, estéticos e acústicos, tornou-se mais frequente.

Por outro lado, como a perspectiva litúrgica conciliar insiste na participação da assembleia, os organistas e coros deixaram de poder executar na liturgia grande parte do repertório. Todavia, a organização de concertos por pessoas com conhecimentos musicais mas pouca sensibilidade religiosa, por vezes, levantou questões relacionadas com os programas.

Se os fiéis mais sensíveis ficavam, por vezes, chocados com a execução de certas obras na igreja (sem falar de rapsódias populares de conteúdo impróprio!), os músicos, cantores e organizadores de concertos ficavam com uma opinião negativa da Igreja por causa das restrições impostas. Nessa linha, a Congregação do Culto Divino propõe às conferências episcopais e comissões nacionais de liturgia «alguns pontos de reflexão e de interpretação das normas canónicas».

As igrejas são lugares sagrados e não apenas lugares públicos, «lugares em que se actualiza já o mistério de comunhão entre Deus e os homens», reserva natural de silêncio e de interioridade. Assim, «não é legítimo programar numa igreja a execução de uma música que não é de inspiração religiosa, e que foi composta para ser interpretada em contextos profanos determinados».

A música sacra, que «foi composta para a liturgia, mas que, por motivos contingentes, não pode ser executada durante a celebração li-túrgica», a música religiosa, «que se inspira num texto da Sagrada Escritura ou na Liturgia, ou que se refere a Deus, à Virgem Maria, aos Santos ou à Igreja», têm como lugar próprio de execução a igreja, fora das celebrações litúrgicas.

O documento deixa assim muito claro que a música religiosa não litúrgica e as pérolas sacras que já não correspondam aos critérios actuais de liturgicidade, devem ser executadas em concerto, fora das celebrações litúrgicas: rentabilizam o tesouro musical da Igreja, promovem os valores humanos, culturais e religiosos.

Os concertos podem até ser úteis e oportunos «para preparar as principais festas litúrgicas ou dar às mesmas maior sentido festivo, fora das celebrações […], acentuar o carácter particular dos diversos tempos litúrgicos […], criar nas igrejas um ambiente de beleza e de meditação […], manter vivos os tesouros da música de igreja […], ajudar os visitantes e turistas a perceberem o carácter sagrado da igreja, por meio de concertos de órgão, previstos em determinadas horas».

As próprias composições musicais contemporâneas que não correspondem às exigências litúrgicas, poderão caber nas devoções e concertos espirituais.

Ao bispo compete a aprovação do programa musical de cada concerto, auscultada a Comissão Diocesana de Música Sacra, cuja decisão não se baseará meramente em gostos pessoais. Aos orga-nizadores, exige-se entrada livre e gratuita, o que não acontecia com a Instrução de 1958 (exigia-se que a venda de bilhetes e distribuição de programas fosse feita fora da igreja).

Assistentes e intérpretes (que evitarão ocupar o espaço do presbitério) devem respeitar o carácter sagrado da Igreja. É óbvio que o organizador de concertos em igrejas, deve conhecer a legislação da Diocese e da Igreja sobre a matéria.

Além disso, «assegurará por escrito a responsabilidade civil, as despesas, a arrumação do edifício, os danos eventuais». O responsável pela Igreja colocará o Santíssimo Sacramento «numa capela anexa ou noutro lugar seguro e decoroso». Com uma sensibilidade que supera excessos de formalismo, o texto sugere que haja comentários com informações de carácter histórico e artístico para melhor experiência musical da assistência.

Embora algumas normas sejam restritivas, como é natural e necessário, no seu conjunto a Instrução revela gosto pela música sacra e sensibilidade aos tempos actuais.




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