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A vida em perfume de rosa…

Este era o segredo profundo de uma sensibilidade humana e religiosa, encarando a terra como um solresplandecente, imagem e símbolo do Invisível. Nós, portugueses, entenderemos a lição?!…

N/D
28 Abr 2004

A existência humana é uma breve passagem entre a vida e a morte, mas a ponte é o Amor. Por isso, quando as rosas florescem, espelha-se um pouco de céu nos olhos dos que as podem entender… (Karl Ley)

Poucos momentos na vida definem um homem como os últimos da sua passagem terrena.

Os últimos gestos prenunciam e resumem o que foi a vida. Por isso se cobrem com flores as urnas dos mortos e lhes oferecemos as que mais apreciaram. Mas, se a vida é uma passagem, poucos sabem cobri-la de rosas, essas que são o símbolo do que vivemos, amamos e transmitimos.

Assim pude há dias viver a última despedida de um dos homens que mais apreciei e que, nas minhas circunstâncias, é a homenagem e gratidão a um alemão benfeitor da comunidade portuguesa, fundador de uma empresa de mais de 400 hectares cobertos de viveiros de plantas, fruticultura, jardins e flores, com mais de trezentas alfaias agrícolas, tractores, motocultivadoras, camiões, etc. A 15 km de Bona, na estrada que segue para Koblença, ou para o Platinado, mesmo na entrada do Eifel, aí vamos encontrar um verdadeiro jardim na campanha, superior ao “Bonner Bundesgartenschau”.

Tendo vivido a guerra e como consequência fora atingido de uma grave doença nos rins, depois de internado em Königsberg, veio para os arredores de Bona, onde recuperou a saúde, após prolongado tratamento. Optimista por natureza, a sua divisa era esta: «Verde é a vida». Depois dos trágicos sofrimentos da guerra e, mais tarde, a crise do petróleo, com as consequências da poluição, numa extraordinária visão e previsão do futuro, com o seu irmão, lança-se na fundação de uma empresa de árvores, das maiores da Alemanha, e hoje com mais solidez económica. Aí trabalham, desde 1969, dezenas de portugueses, e por aí passou talvez uma centena.

Pelo que tem de pedagógico, permito-me algumas confidências pessoais. Tem clientes em toda a Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Holanda e Portugal, para onde vendeu muitas árvores. Sobretudo para o Porto e Lisboa, que visitou várias vezes, e disse-me: «Os portugueses têm um país bonito, com o clima ideal para as flores, vegetação e águas, mas têm-no tão triste e tão mal cuidado… queimando até as florestas, um crime bárbaro!… Os portugueses são trabalhadores, dos mais queridos e dedicados na minha empresa, mas, por vezes, muito divididos e invejosos uns dos outros. Que se passa com a educação, social, económica, ecológica e política do seu País?!»

E cabisbaixo, quase envergonhado, eu respondia que não sabia explicar e que apenas fôramos um país de grande passado colonial, com uma grande história, mas pobres no contexto europeu, ainda com muitos “emigrantes…”.

A pobreza, porém, mais grave que a terra, vinha da nossa mentalidade, dizia ele, e eu corroborava. É preciso educação, formação e sensibilidade, mesmo religiosa. Mas que alegria este homem sentia quando via crescer as famílias dos portugueses (a maior parte de Ponte de Lima e de Lamego…), como exultava quando compravam até bons automóveis, em índice de viverem bem… todo se contentava, avançando mesmo o salário mensal, se fosse preciso: «Somos uma família e sinto-me feliz por poder alojá-los em ambiente de aldeia, onde com bons ares, os meus trabalhadores tonifiquem os pulmões».

A sua flor preferida era o lilás. Tocava piano, engenheiro de viveiros, cavaleiro, passou pelas corridas de Nurbüring, mas não abusava de carros, tendo sempre uma vida modesta, simples, com uma tolerância sadia para com as suas filhas e esposa. Lutava, porém, por leis justas, ecológicas, que preservassem a Natureza e estimulassem a cultura da terra.

Por deveres de ofício, a convite dos meus concidadãos, eu estive presente no seu funeral num belo dia de sol, em que Meckenheim era um verdadeiro jardim nesta linda Primavera. Morreu na Sexta-feira Santa. Como grande mecenas da cidade, comendador com as mais altas estrelas e condecorações, era ainda sócio e benfeitor de três clubes, como oferecera alguns anos as flores para a festa em honra de Nossa Senhora de Fátima. Dias antes, tinha oferecido à sua bela cidade natal mais de 2.500 rosas… que o saudavam sorridentes, no dia da sua última despedida.

Na igreja católica, com milhares de amigos internacionais, a Missa dos Mortos, de Schubert, com motetes e Ave Maria. Foram a coroação deste Homem, que passou a vida, lutando por um Ideal, que era o de transformar este mundo num jardim, longe da amargura e das guerras, fazendo do sorriso a expressão de quem passou a vida, plantando flores e árvores, como fazendo desabrochar outras, na esperança de um mundo a ser transformado, por dentro e por fora, por uma verdadeira e autêntica ecologia, com outros perfumes e outras rosas… E ouvimos a sua música preferida, na última encomendação da alma!… Mas este era o segredo profundo de uma sensibilidade humana e religiosa, encarando a terra como um sol resplandecente, imagem e símbolo do Invisível.

Nós, portugueses, entenderemos a lição?!…




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