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Viagem de autocarro neste país real…

Apesar da epopeia, toda a gente chegou viva ao seu destino…

N/D
27 Abr 2004

Desde ontem que o tempo aqueceu e tive de ir a Lisboa. Tomei um autocarro de dois andares. E, já que a viagem era longa, decidi ascender ao piso superior, a fim de contemplar melhor a paisagem primaveril, porque o sol não fazia cerimónias.
Havia ali um calor horroroso. Contudo, como a viatura, no vidro de trás, anunciava a existência de ar condicionado, pensei inocentemente que ainda o não haviam ligado. Assim, aguardei com paciência o compensador momento de sentir o seu barulho característico. Já perto da partida, com a satisfação de quem se vê recompensado pela serenidade da espera, deu-se a almejada conexão. Imediatamente, aprontei todo o meu sistema de temperatura para começar a sentir a frescura inundar o meu corpo.

Mas em vão. Sobre o banco, mexi e remexi, uma e outra vez, os botões típicos. Aumentava, se os rodava para um lado, o ruído; diminuía-o, se procedia ao invés. O fresquinho, porém, não dava sinal de si. Os meus companheiros de viagem repetiam os mesmos gestos; tudo inútil. Alguém desceu ao rés-do-chão, para falar ao motorista do problema do ar condicionado. A resposta foi: «Está ligado…».

O autocarro começou a andar. O calor aumentava e o desespero dos passageiros, também. Desci eu.

Falei ao motorista com calma, explicando-lhe a situação. No andar de baixo, felizmente, o ar condicionado fazia sentir a sua presença com certa timidez. A resposta foi igual: que estava ligado.

No entanto, falou com um colega da empresa – que in illo tempore foi nacionalizada, “nossa”, como então se dizia, sem que posteriormente voltasse à vida privada -, pedindo-lhe um favor: «Ao menos, abre-me a “comporta” do tecto, para que o vento refresque o ambiente lá por cima…» Eu subi e, atrás de mim, o colega do motorista.

Robusto e jovem, mexeu em todas as alavancas possíveis e imaginárias. O azar, por imperativo do destino, instalara-se no primeiro andar e a comporta, renitente e inamovível, resistiu heroicamente a todo o esforço hercúleo do homem.

Suando – não digo já as “estopinhas”, mas a angústia de quem se sente antecipadamente no inferno -, lembrei-me da parábola do filho pródigo, quando o rapaz, atenazado pela fome, reconsidera a sua situação deplorável e resolve voltar para a casa paterna. Dizia com os meus botões: «Para quê ficar cá em cima, se lá em baixo o ar condicionado funciona»? Peguei na pequena mala e desci. Havia, efectivamente, menos calor, mas as promessas dum paraíso de frescor dissiparam-se, porque o ar condicionado, embora chiasse muitas promessas, decidira fazer greve das suas funções.

Seja como for, estava-se melhor. E, embalado pelo calor… passei pelas brasas, até que alguém, que desceu do primeiro andar e desconhecia as minhas diligências, falou de novo com o motorista sobre o forno do piso de cima. O condutor, pacientemente, respondeu: «O ar condicionado está no máximo. O problema é que deve ter-se avariado… Não houve o barulho?»

Chegámos a Coimbra. Dez minutos para distender as pernas… Saí e, ao voltar já sobre a hora da partida, verifiquei que o homem do volante tinha mudado. Este, mais novo, mascava a sua pastilha elástica. Ia falar com ele, quando um passageiro do primeiro andar, que embarcara há pouco, afogueado e aflito, lhe pediu que ligasse o ar condicionado, já que lá em cima a temperatura era de febre alta.

O homem olhou para os botões respectivos e explicou: «O ar condicionado está ligado…» O passageiro ainda tentou argumentar: «Não funciona… Não deita ar… Os botões estão perros… O que se passa?» Irritou-se um pouco, aumentando a velocidade da mastigação: «Como quer que eu saiba o que se passa? Tomei agora conta da viatura… Se quer fazer alguma reclamação vá ali às Informações…».

Dois ou três minutos depois, o autocarro recomeçou a marcha. E um outro passageiro do andar superior desceu, acalorado, com a mesma queixa. «Disse a um senhor que cá veio, que se queria reclamar, fosse ao sítio que lhe indiquei. Não foi, azar!…» E prosseguiu no seu diá-logo com a pastilha elástica.

Lisboa, por fim, mais ou menos à tabela… Um suspiro de alívio e também de ar mais fresco…
Hoje – sábado de manhã – voltei à cidade onde vivo, no mesmo meio de transporte. E este “mesmo”, tanto quanto me apercebi, deverá interpretar-se no sentido rigoroso do termo, porque a “viatura”, como lhe chamava o da pastilha elástica, era a da tarde anterior.

À cautela, deixei-me ficar no rés-do-chão, receando o pior para o primeiro andar. E acertei em cheio, pois, neste piso, havia já, pelos vistos, muito calor. Acomodei-me e, curiosamente, a cena da véspera repetia-se. Com frequência, surgia um ofegante passageiro para abordar o motorista. E a resposta era a que eu próprio ouvira na tarde da sexta-feira: «Está ligado. Está no máximo…» O calor, todavia, é que não passava…

Donde devemos concluir que o anúncio de “ar condicionado” não significa o que significa, nos autocarros desta empresa nacionalizada, “nossa”… Apesar da epopeia, toda a gente chegou viva ao seu destino…




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