Fotografia:
Nesta sociedade adolescêntrica

Estamos a viver ao sabor do imediatismo – do desejo, da sensação, do fácil, do adiar o que é ou possa ser difícil

N/D
26 Abr 2004

Quando pensávamos estar numa fase mais evoluída da história da humanidade e da nossa própria sociedade, eis que alguém caracteriza o nosso tempo como o de uma ‘sociedade adolescêntrica’. Esta consiste (segundo o padre e psiquiatra francês Tony Anatrella) numa sociedade que se identifica geracionalmente com os valores da juventude, em que os pais se vestem e falam como adolescentes e as próprias autoridades actuam de acordo com esta filosofia.
Esta atitude traduz-se em muitos adultos por um certo complexo de Peter Pan, perpetuando-se numa fase de vida onde tudo é cor, alegria, emoção e pouco sofrimento!

De facto, estamos a viver ao sabor do imediatismo – do desejo, da sensação, do fácil, do adiar o que é ou possa ser difícil – com que tantos adultos, que deviam ser responsáveis, como que se vão misturando com os ‘mais novos’ fazendo-se como eles ou mesmo pior do que eles.

É habitual encontramos mães que ficam elogiadas se lhes dizem que parecem irmãs das filhas.

A própria linguagem entre si denota essa adolescentização exaltada, tais os tiques, trejeitos ou ambientes em que se encontram, confundem ou polarizam.

Se nos detivermos sobre a (nossa) vida político-partidária é frequente vermos grupos ou sectores a fazerem leituras hiper-adolescentricas sobre certas questões sociais – v.g. a temática da vida//aborto, das drogas, da responsabilidade pessoal, grupal ou colectiva – criando no ar algo que se torna perigoso, pois nem sempre há capacidade de reflexão crítica e muitos dos reais adolescentes (na idade!) deixam-se ir na onda… até virem a acordar do engodo!

Tal como os adolescentes de hoje assim a nossa sociedade tem muita informação e pouca maturidade, muitos direitos e poucos deveres, bastantes projectos e ténues concretizações…

Este clima muito fashion com que somos invadidos está a dar frutos: o desemprego é matéria servida em folhetim, qual novela de morangos com açúcar; os atentados terroristas parecem (na ênfase noticiosa) jogos de play-station onde o sangue reveste a cor da vingança electrónica; alguns gastos em estádios, estradas ou promoções de obras públicas soam a compras em saldo, qual folar na mão de adolescentes em maré de férias…

Afinal, quem está em crise: são os mais novos ou os (ditos) mais velhos? Até onde irá esta etapa de adolescência colectiva? Como poderemos fazer cair em conta do seu descontrolo tantos com poder (económico, político ou religioso), mas sem autoridade, ao menos moral?

Cada época tem as suas características, crises e ideais. As crises parece que as vamos descortinando. As características podemo-las (já) enumerar. E os ideais seremos capazes (ainda) de os discernir?




Notícias relacionadas


Scroll Up