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A Evolução na Revolução

Não posso tolerar a ideia dos pucarinhos todos iguais, alinhados e a bater palminhas a compasso, como de meninos de coro se tratasse

N/D
26 Abr 2004

O golpe militar que, no dia 25 de Abril de 1974, mudou o regime político, em Portugal, foi, este ano, celebrado de maneira diferente. Dessa revolução resultou uma evolução que a grande maioria das pessoas mal reconhece como extraordinária. A revolução percebe-se na evolução das mentalidades.
Parece-nos bizantinice discutir se deveríamos celebrar a revolução, ou se devemos celebrar a evolução. Esta – a evolução – é filha directa da primeira e, quem honra a filha, também honra a mãe.

Claro que ainda andam no ar saudades duma revolução activa, potenciada em ideais marxistas, capazes de grandes transformações sociais; há quem tenha saudades dos saneamentos, dos plenários tumultuosos, dos slogans e canções revolucionários, das inscrições nas paredes, das ocupações selvagens, das nacionalizações a eito, do controlo operário, da reforma agrária… e essas saudades sabem a frustrações para aqueles que fizeram disto desejos e sonhos, sonhos que foram bolas de sabão “num dia”, e rebentaram no galho do tempo.

A evolução foi noutro sentido, foi na direcção da assunção da liberdade e garantias individuais. Somos imensamente mais senhores de nós mesmos que antes do 25 de Abril. Só por isso valeu a pena a revolução. Penso que a liberdade da expressão, escrita, falada ou televisionada contribuiu, em larga escala, para a evolução da revolução; as mentalidades são as que mais custam a mudar, logo são as que resistem mais tempo às mudanças.

As páginas dedicadas à opinião, os comentadores de várias correntes políticas na rádio, nas televisões, abriram um leque enorme de conceitos e tendências, reflectindo-se no pensamento plural de cada indivíduo e, assim, potenciaram divergências; ao argumento contrapôs argumentos e chegou ao interior da convicção de cada um, na bandeja da escolha das opções.

As liberdades verdadeiras são estas porque pertença do indivíduo, enquanto sujeito, e não apenas do grupo, enquanto agente mobilizador. Muitas das vezes ser do grupo não passa de um desejo de integração e nem sempre espelha e reflecte uma vontade intrínseca do indivíduo. Passa-se, assim, com a moda no vestir, no calçar, no falar e, por comparação, também na política. Quando ouvimos dizer, “eles tem razão mas eu cá voto sempre no mesmo”, estamos diante de alguém que já não sabe quem é, onde fica a sua capacidade de discernir, ou onde mora a sua identificação como sujeito.

Deixou de ser ele para ser os outros. Esta predisposição para o conservadorismo político, isto é, para ser sempre do mesmo, vai sendo abanada pela opinião dos articulistas e comentadores? Ninguém o poderá dizer ao certo, muito menos em que medida. Mas também não são essas as preocupações dos articulistas, ou comentadores; nenhum articulista ou comentador que se preze deve estar com a preocupação de fazer discípulos.

Não posso tolerar a ideia dos pucarinhos todos iguais, alinhados e a bater palminhas a compasso, como de meninos de coro se tratasse. Foi na discordância, no confronto de ideias e ideais e, porque não no conflito, que se estruturou a evolução desta revolução dos cravos. Esta revolução feita e tecida de palavras, foi arado que lavrou o pensamento pós-25 de Abril de 74 e virou convicção.

E esta, liberta de medos e proibições, se criou aqui e ali alguns desmandos de pássaros libertos da gaiola, por outro lado mostrou a Revolução do 25 de Abril, os trilhos da evolução profunda que consolidou a revolução.




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