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Viva o 25 de Abril

O passado, hoje, envelhece muito rapidamente. Agora, ao contrário do que sucedia há não muitos anos, quando a vida de uma pessoa era pouco tempo para ver qualquer coisa mudar, há permanentemente múltiplas pequenas revoluções que transformam o nosso quotidiano.

N/D
25 Abr 2004

As mudanças são tantas e tão rápidas que, em muitos domínios, é o próprio presente que parece obsoleto. De repente, é difícil compreender como era possível funcionar no tempo em que não havia telemóvel, meia centena de canais televisivos e Internet.

É normal, por isso, que, entre os mais novos, sejam inúmeros os que imaginam que a Revolução dos Cravos ocorreu naquela parte do passado em que todos os acontecimentos se misturam na mesma cena em que aparecem, devidamente compactados, a extinção dos dinossauros, a batalha de Aljubarrota, a descoberta do caminho marítimo para a Índia, o 25 de Abril, o 5 de Outubro e o 1 de Dezembro. Convidadas recentemente a desenhar o 25 de Abril, diversas crianças resolveram colocar as chaimites a cercar castelos.

Pequenos gestos hoje rotineiros, como o de Eduardo Ferro Rodrigues num jantar realizado na quinta-feira em Lisboa para comemorar o aniversário da Revolução dos Cravos, não teriam sido possíveis há mais de trinta anos.

Nessa altura, o secretário-geral do Partido Socialista, que evidentemente também não teria possibilidade de se encontrar tranquilamente com quinhentos militantes do seu partido, não poderia, como a televisão mostrou, pegar numa garrafa de Coca Cola e deitar a bebida no seu copo.

Comercializada em Portugal no final dos anos 20 do século passado, a Coca Cola seria proibida pouco tempo depois para apenas regressar após o 25 de Abril. Segundo conta Luís Pedro Moitinho de Almeida (“JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias”. Lisboa, 16 de Março de 1982), filho do agente da bebida em Portugal, a mercadoria começou a vender-se bem, mas o slogan que Fernando Pessoa tinha inventado para a propagandear – «Primeiro estranha-se. Depois entranha-se» – ajudou à morte da representação da Coca-Cola. É que o director de Saúde de Lisboa, Ricardo Jorge, mandou apreender o produto existente no mercado e deitá-lo ao mar.

Moitinho de Almeida lembra-se de Fernando Pessoa lhe contar que Ricardo Jorge justificava o seu entendimento argumentando de um modo simples: «se do produto faz parte a coca, da qual é extraído um estupefaciente, a cocaína, a mercadoria não podia ser vendida ao público, para não intoxicar ninguém; mas se o produto não tem coca, então anuncia-lo com esse nome para o vender seria burla, o que igualmente justificava que ele não fosse permitido no mercado».

O articulista acrescenta que Ricardo Jorge entendia, segundo também lhe contava Fernando Pessoa, que o slogan reconhecia a toxicidade do produto, pois o que primeiro se estranha e depois se entranha são os estupefacientes.

A exibição das imagens de Ferro Rodrigues com uma garrafa de Coca Cola em noticiários transmitidos na madrugada de sexta-feira também não seria possível há mais de trinta anos. Nessa ocasião, em que havia apenas dois canais e dois noticiá-rios televisivos (um, no período de emissão televisiva, que se designava “Hora de Almoço” e que começava às 12h45m e terminava às 15 horas; outro, à hora de jantar), a televisão encerrava a emissão antes da meia-noite e a censura obviamente também não permitiria que se soubesse que o líder de um partido da oposição tinha criticado o governo.

O 25 de Abril trouxe novos produtos, novos serviços e novos hábitos. Começou a ver-se televisão até depois da meia-noite e, por decisão, não isenta de controvérsia, do Conselho de Ministros de 31 de Maio de 1979, foi autorizada a introdução da televisão a cores, tendo ficado estabelecido que em Março de 1980 se iniciariam as emissões em regime experimental. Mais tarde, multiplicavam-se os canais portugueses e generalizava-se o uso da parabólica e do cabo.

Muitas e boas foram – e que bem-vindas foram – as mudanças que trouxe o 25 de Abril, mas muito foi o que não se alterou. Francisco Sarsfield Cabral dizia na quinta-feira, no “Diário de Notícias”, que «os portugueses continuam a ser o que sempre foram: incultos, desorganizados, pobres, complexados e poetas».

No geral, é verdade. Os portugueses continuam, como foi possível ler nos jornais da semana, a praticar a escalada das cunhas (o pequeno pequeno mete uma cunha ao pequeno médio que mete uma cunha ao médio pequeno que mete uma cunha ao grande médio) e a matar os vizinhos à sacholada por causa de umas águas. O fascismo fê-los assim e tantos são os que assim continuam.




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