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Cá por mim, preferia os pastores com telemóvel

1. Florestas vigiadas por beneficiários do “rendimento mínimo”

N/D
24 Abr 2004

No passado dia 27 de Março de 2004 noticiaram os jornais que o Governo de Durão Barroso irá mobilizar os beneficiários do Rendimento Social de Inserção (antigo Rendimento Mínimo Garantido) para a prevenção e vigilância dos fogos florestais. Especialmente se tiverem entre 18 e 30 anos de idade e estiverem inscritos em qualquer centro de emprego.
Ora isto é uma péssima medida. Salvo o devido respeito por aquela parte dos beneficiários do dito Rendimento, que tenham ao mesmo tempo apetência pela causa da Protecção da Natureza, honestidade pessoal e vontade de trabalhar, o que se constata é que o perfil genérico destes beneficiários não recomenda minimamente que se lhes entregue tarefa de tanta importância. Hoje, como a grande maioria das pessoas fugiu do campo e veio morar para as cidades e suas periferias, é precisamente nas desenraizadas cidades que se encontra a esmagadora maioria dos beneficiários do dito Rendimento. E dentro destes, é consabido que não poucos dos que se encontram na faixa etária dos 18 aos 30 anos foram ou são toxicodependentes, quando não mesmo pequenos traficantes. Ou por outro lado, não sendo viciados em nada, pertencem às vezes a minorias étnicas que não têm qualquer ligação ou amor pelo território da Pátria, que, como é óbvio, não é a sua.

Este perfil genérico variará de distrito para distrito, concordo. Mas isso não vai desmentir a realidade geral acerca do perfil genérico do jovem beneficiário. O qual, na melhor das hipóteses, é sempre um despistado jovem citadino, desligado do campo (desprezando-o, mesmo). E que mais facilmente distinguirá entre o baterista dos Nirvana e o guitarrista dos Motorhead, do que entre um sobreiro e uma oliveira. Aliás, muito boa gente da cidade não sabe identificar uma oliveira, como ficou bem documentado (vídeo-gravado…) numa presidência aberta do Dr. Mário Soares. E referimo-nos, aqui, a ele próprio…

2. O campeonato nacional da inocência e da ingenuidade

É por estas e por outras que a ideia guterrista de pôr os pastores (alguns deles, notórios incendiários) com um telemóvel oferecido a guardarem as florestas irá ficar aquém, no campeonato da ingenuidade e inocência, das medidas que os ministros Sevinate Pinto e Bagão Félix vêm agora propor. É que, ao menos os pastores, são gente do campo, treinados por natureza. Não iriam precisar de um curso de formação. Do que necessitavam era de um complemento salarial condigno, capaz de dissuadir alguns deles de aceitar 30 moedas de qualquer madeireiro ou empresa de celulose multinacional.

3. Os guardas florestais e o Exército

E se, no fundo, é de dinheiro também que estamos aqui a falar, por que não pagar decentemente (e armar e equipar decentemente) a um corpo de guardas florestais? E por que não, depois do catastrófico Verão de 2003, quintuplicar ou decuplicar o número destes guardas, que hoje não passam de uns ridículos 600? Por que não integrar a Guarda Florestal nas próprias Forcas Armadas, uma vez que hoje em dia Portugal não sofre o perigo de qualquer agressão militar e o pior que lhe vem acontecendo é esta destruição anual, sistemática, provocatória e acintosa, de todas as suas florestas e de todas as suas outrora belas paisagens? Não há dinheiro? Mas com certeza que há.

Então não tem havido dinheiro, mil vezes mais dinheiro, para as Expos, para as Casas da Música, para os milhentos novos estádios do Euro 2004, para duas novas pontes em Entre os Rios, para os comboios de alta velocidade (TGV’s), para os nefastos molhes do Douro, para o aeroporto da Ota, para as propostas injustificadas de destruir os prédios Coutinhos? Meus senhores, dinheiro é papel e papel é coisa que não falta no Portugal de hoje…

Se os incendiários e seus mandantes (estrangeiros e nacionais) ameaçam o território, quem tem competência para defender o território são as Forças Armadas, isto é, o exército e a aviação. Os aviões e helicópteros fretados por particulares revelaram-se um fiasco bastante suspeito? Pois que então se recorra à Força Aérea nacional. Se o ministro da Defesa comprou dois submarinos, porque não compra agora dez helicópteros e 20 “Canadaires”? Pois se ele esta lá para mandar, para gastar bem gasto o dinheiro de nós todos… Pois então que o faça, visto que o terrível Verão de 2003 demonstrou que disso há grande necessidade…

Contudo, e ao contrário do substancial reforço de meios e pessoal que toda a gente acha agora necessário, vem o Governo propor que 200 militares, apenas, passem a vigiar no próximo estio os arvoredos nacionais, conforme foi noticiado no “Diário do Minho” do passado 8 de Abril. É ridiculamente insuficiente. Equivale a uma média aproximada de um militar por concelho…

4. Fogos antes da “época oficial de fogos”

A documentar que a esmagadora maioria dos incêndios é causada por fogo-posto, eis que no passado dia 26 de Marco (por coincidência na véspera do tal anunciado recrutamento dos moços do Rendimento Mínimo) acontece um magno incêndio nos montes vizinhos a Braga e Guimarães (Sameiro e Falperra). Conforme a última página do DM de 27-3-2004, os incêndios foram ateados em vários locais ao mesmo tempo (prova segura do crime), a frente estendeu-se por quilómetros e arderam, no mínimo, 50 campos de futebol.

Na semana antes da Páscoa deram-se também fortes incêndios no Sardoal, concelho ribatejano pegado ao martirizado distrito de Castelo Branco. Outra vez fogo-posto. Parece que os incendiários começam a ter preferência por actuar antes do tempo quente, aproveitando a quase nula vigilância que existe antes de instituída «época anual de fogos».

5. Causas naturais? Descrédito absoluto…

A comissão especializada, nomeada pelo Parlamento para averiguar as razões do catastrófico Verão de 2003, deliberou que foram sobretudo «causas naturais» que estiveram na origem de que no ano passado em Portugal tivesse ardido uma área equivalente ao distrito de Vila Real! Bem, talvez no fundo não estejam a dizer mentira nenhuma, visto que as causas dos incêndios são sempre naturais… Não são «sobrenaturais», definitivamente!

Aliás, as «causas naturais» estão na moda. O jovem e vacilante juiz Nuno Melo (um verdadeiro “quaker”) disse também que foram as ditas «causas naturais» a mandar abaixo, ao rio, a ponte de Castelo de Paiva e a afogar 60 pessoas. Bem, para muitos a extracção de areias é também uma «causa (bem) natural», nada tem de sobrenatural. A não ser que «causas naturais» seja o nome de alguma quadrilha de malfeitores. É também possível.

E que se há-de dizer dum país com estas comissões parlamentares ou com estes juízes que enxergam menos que certos árbitros de futebol? A “sábia” decisão do juiz Melo foi aliás quase concomitante com o suspeito afastamento do juiz Rui Teixeira do processo Casa Pia. Enfim, estamos em Portugal, aquela nação em que o jovem Secretário de Estado confessou não possuir carta de condução! Acabava de ser filmado pela TVI com o seu chofer a guiar dentro de Lisboa a mais de 100 e a ultrapassar pela direita. Trata-se do Dr. Nuno Magalhaes e manda em todas as autoridades policiais fiscalizadoras do trânsito e nas Inspecções Automóveis…




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